31/12/2010

Mandinga para um feliz ano novo

Particularmente, não percebo nenhuma mudança grande, nem mística de 31 de dezembro para 1º de janeiro, além de ficar com sono e cansado durante quase todo o dia 1º de janeiro. Aliás, olhando pra trás, fui quase sempre meio indiferente (e às vezes aborrecido) com as datas "festivas" mais aguardadas, Natal, Reveillon e Carnaval. Na passagem de ano as pessoas se abraçam e se beijam como se os fogos de artíficio tivessem mudado alguma coisa dentro delas. Mas respeito quem leva a sério essa data, tanto que resolvi escrever sobre isso.
Não há feliz ano novo sem dedicação à reflexão, a uma reflexão constante e conjugada à ação. E isso não se faz num único dia. Quer dizer, teremos um feliz ano novo não por força de uma palavra mística capaz de melhorar nossa vida e nosso ano nem por força de rituais de passagem de ano, como imprecações contra o mal agouro. Um feliz ano novo é resultado de uma vontade atuante de pensar (e executar) projetos particulares que possam melhorar nossa própria existência todo dia. E digo isso sem contar com os acasos, que são muitos e desestabilizadores. A melhor mandinga para um feliz ano novo é a paciência e a razão, não necessariamente nessa ordem. E viver.
Feliz ano novo!

30/12/2010

Sociologia e arte

Sabe qual a maior barreira entre a sociologia e a arte? Vontade.
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A arte é maior, é o céu, azul, o paraíso, a elevação do espírito. (Sa)
A sociologia está na base, e é vermelha, como o sangue que jorra das lutas dos movimentos sociais. (Ra)
No meio, o amarelo, o calor que desconcentra o artista, a luz que ofusca a sociedade, a riqueza em si mesma, sem arte, nem sociedade. Esse amarelo também dá o tom pálido à face do defunto, que continua insepulto, e separa dois mundos. (Vá)
Sa-ra-vá!

29/12/2010

Luxo e lixo

Há coisas na vida que nem todos conhecem. E nunca conhecerão, nem de ouvir falar. E se ouvirem falar, não acreditarão. São conhecimentos limitados a classes específicas. Conhecimentos para poucos. Conhecimentos extremados: do lado de cima e do lado de baixo. E posso afirmar com convicção, são conhecimentos que não trazem nenhuma aquisição. Pode-se passar uma vida toda, e mais algumas outras, sem experimentar o que não entendemos o porquê. E chegaremos a um mesmo fim: o luxo não suporta o lixo e o lixo sonha com o lixo do luxo. Para ambos, faltam conteúdos. À riqueza lá de cima falta sensibilidade; à pobreza lá de baixo, também. Uns exibem, os outros sobrevivem. Por isso estamos longe de diminuir os abismos, porque eles se completam, se merecem, se consomem. Não há fagulhas entre eles, porque são marginais. As fagulhas são produzidas nos contatos entre as classes próximas. E as do meio sempre sofrem. Sofrem porque são ameaçadas pelas de cima e pelas de baixo. Sofrem porque querem ser como as de cima e fogem das de baixo. As do meio estão encurraladas. E são incapazes de gerar uma lógica econômica diferente das classes marginais: consumo. Consumo que gera lixo, em cima; e lixo pra gerar consumo, em baixo. Os opostos se destroem. E destroem a humanidade. E o humanismo. Viver passa a ser sobre-viver (viver sobre) e sobreviver (se virar). O fim está próximo. Acabou.

28/12/2010

Esquecer

Quero dizer rápido:
Esquecer-me não será fácil.
Não que seja insubistituível,
Mas é que sou inesquecível.
E sou assim,
Apesar de mim.
Sou animal exótico,
Caranguejo erótico.
E sufoco e divirto quem cruza comigo.
Até a morte,
A fuga
Ou a gargalhada.

Você poderá conviver com minha ausência,
Mas isso não significa que não vá visitar você:
Quando ouvir um punk rock, vai lembrar de mim;
Quando comer palmito, vai lembrar de mim;
Quando assistir um filme, vai lembrar de mim;
Quando vir um móvel de demolição;
Quando comer bacalhau;
Quando espiar um Basquiat;
Quando se depilar;
Quando se deitar;
Quando viajar e sentir frio (lá não queria estar);
Quando avistar alguém de bicicleta;
Olhar um grafite;
For numa livraria;
Estudar sociologia;
Comprar uma casa na praia;
Souber de alguém com câncer;
Souber de alguém de câncer;
Transar com outro;
Ouvir Gonzaguinha (ou uma música francesa);
Apreciar Schiele;
Ouvir falar de Macaé;
Fizer uma tatuagem;
Quando me vir passar (ou não me vir)...
Vai lembrar de mim.
Infelizmente, será assim.
Mesmo sem querer,
Vou atormentar você.
E você terá que aguentar,
Você terá de me matar.
Porque eu não desisto não,
Não vou me entregar.
Posso até fugir,
Mas não sou de engolir.
Estarei sempre aqui,
Tentando esquecer o que não posso,
O que sei que não vou.

E quando a gente se encontrar,
Fingirei que nada mais há.
E você não verá minhas lágrimas a rolar.
Mas elas vão me alimentar,
Até ficar tão forte,
Tão grande,
Tão vivo,
Que você não deixará de me ver,
Em todo lugar.
Só pra não deixar você esquecer.
Afinal, esse é o dilema da memória:
Ela é estimulante e sufocante.
Mas vai adiante
E não olhe para trás,
Porque o passado corre atrás,
Por isso é tão difícil esquecer.
Sinto muito!
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Imagem do belo espetáculo de dança Mémoires d’Oubliettes (2009), do coreógrafo tcheco Jirí Kylián. O título do espetáculo remete à idéia de relacionar memória com esquecimento. http://www.ndt.nl/ballets/6

27/12/2010

Pau amigo

Pau amigo.
É isso que digo,
É isso que vivo.
Mas assim não sigo.
Afinal, quem espera sempre cansa.
E quem não cansa, mantém esperança.
Eu que não sou de perseverança,
Inicio a matança
E me liberto de quem dança.
E continuo deitado,
Esperando de lado,
Atordoado
E com o estômago embrulhado.
Acho que vou vomitar!
Uwááááá uwwaáááááááá uwwaáááá
Pau amigo,
É nisso que dá.
Só lhe dão.
Solidão.
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Imagem: Pintura atribuída a Lucian Freud, "Man with leg up".

26/12/2010

Trepa-trepa

Carinhosamente ela chega.
Maliciosamente se encaixa.
E se beijam ardentemente
Até que ela toma a frente.
Nus braços fortes,
Duramente castigados e castigantes,
Sentam na mesa para comer.
Mas nunca se fartam.
Caem no chão,
Em plena união.
Sem castidade,
Nem piedade.
As roupas estão jogadas,
As pernas, emboladas.
E as razões,
Perdidas em algum lugar.
E não se quer achar.
Vão a outro lugar pra sentar:
Ele vai primeiro
E senta ligeiro.
Ela o abraça e senta em cheio,
E esconde inteiro.
E começa a cavalgar
Até cansar.
E suados escutam a respiração ofegante
E a gargalhada extasiante.
E esse não é o fim.
+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
Imagem: Duas Figuras, aquarela de Egon Schiele (1917).

25/12/2010

Delírios

Sonho acordado com você.
Fecho os olhos e vem você.
Essa minha esquizofrenia de você,
Logo vai me fazer voar.
E sei onde isso vai parar,
No chão.

E se a conheço bem,
Logo você vem.
Sem ninguém,
Sem nada.
Nem vergonha na cara.
E me mata de prazer
E de delírios.

24/12/2010

Fogo meu

Tenho o que não me sustenta,
O que não me alimenta,
O fogo que não me queima,
Mas que faz arder.
É fogueira de um pau só.
Com muitas chamas
E pouca luz.
E vem você me dizer
Que não sabe o que fazer.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Imagem de desenho atribuído ao expressionista austríaco Egon Schiele (1890-1918) que estava sendo negociado no Ebay (Mercado Livre). Apesar da beleza do retrato, trata-se de um trabalho não original de Schiele. Às vezes o fake é tão belo e desejável quanto o original. http://www.artfakes.dk/blog/index.php?d=20&m=08&y=05

23/12/2010

Segredos

Penetro sua alma,
Com toda minha calma.
E vivo melhor assim.

Penetro seu corpo,
Com todo meu esforço.
E saio sem parte de mim.

Vou me consumindo com você,
E vou consumindo você,
Perdendo calorias, anéis, dedos...
E segredos.
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Imagem: Eaton Place Nude, Bill Brandt.

22/12/2010

Gozo

Goza com seu amigo
Desde já.
Esquece os dilemas,
Esquece os poemas.
E o porvir.
Goza com o corpo
E sente na alma
A alegria infinita do finito momento.
Com todo sentimento.
Mas não se pergunte qual:
Pode ser amor
Ou pode não ser.
O que importa é o prazer,
Que só um amigo dá,
De ser você.
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Imagem: Amizade, de Egon Schiele (1913).

21/12/2010

Três erres: reconhecimento-ruptura-renovação (versão editada)

Hoje quero pedir licença aos meus quatro leitores assíduos para falar de mim. Sei que falar de si mesmo é meio narcísico, mas preciso me desconstruir urgentemente, paulatinamente. E vou usar vocês para fazer uma análise (uma auto-análise) e desencadear algumas mudanças. Finjo que me ouvem (que me lêem) e essa imaginação é suficiente para me fazer crer que vocês compreendem o que digo e me apoiam nas mudanças pretendidas e necessárias.
Tenho publicado nesse blog análises sociológicas e reflexões poéticas (ou seriam análises poéticas e reflexões sociológicas?) a partir de minhas próprias experiências e crises existenciais, afetivas, profissionais, econômicas... Como não gosto muito de compartimentalizar a vida (o que não significa que nunca o faça) evito estabelecer um dilema existencial só no âmbito da intimidade, ou um problema profissional só no âmbito do trabalho, ou mesmo uma crise afetiva só no âmbito da conjugalidade, como se esses distintos âmbitos (e outros tantos) não estivessem interligados, trocando influências entre si. Entendo a vida como uma integralidade multifacetada (complexa) e cambiável: somos um todo com múltiplas caras e em constante mudança (nem sempre pra melhor).
Tenho tentado, embora esteja sendo difícil/doloroso (pra mim e para os meus chegados), fazer a ruptura com algumas concepções arraigadas a partir de minha própria trajetória. E é claro que não quero jogar tudo fora, mas algumas coisas eu preciso e quero mudar, sob pena de auto-flagelo e auto-degeneração. Por exemplo, preciso mudar a auto-censura que me imponho na manifestação de minhas idéias e o auto-controle de minhas ações, que levam sempre em consideração o outro antes de mim mesmo.
Disse anteriormente que tenho publicado análises e reflexões nesse blog. Mas, ainda há em mim uma auto-censura moral-religiosa-materna que me impede de publicar tudo que escrevo. E isso tem me atormentado. Então, depois de tudo que escrevi até aqui, encerro, de forma seca, dizendo que tenho escrito também poesias eróticas que passo também a publicar a partir de amanhã, tirando de mim o pudor e passando pra vocês. Até!
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Escrever um texto para avisar que minha publicação vai mudar (independentemente se pra melhor ou pior) demonstra bem a moral que ainda carrego, de preocupação excessiva com o outro (mesmo que esse outro seja indefinido). Para se ter uma idéia, a primeira versão final desse texto ficou com o dobro do tamanho, mas resolvi cortar (embora não tenha jogado fora) uma parte grande em que reconstituia criticamente minha própria trajetória. Não tive coragem de publicar o texto na íntegra com medo de magoar pessoas queridas, que é uma forma de auto-proteção.

20/12/2010

Deriva

Minha casa sempre foi volante,
Circulante.
E me circundava de modo agradável,
Me tornando inabalável.
Minha casa não é mais a mesma.
Ela nunca foi minha.
E sigo atento,
Em meio ao tormento,
Esperando o momento:
E nem sei se vem;
E nem sei se volta.
O vento me leva pra onde sopra.
E quando não se sabe o que se quer,
Qualquer um pode meter a colher.
A deriva parece ser o estado certo
E as pedras passam bem perto.
Mas busco me guiar
Tentando imaginar,
Pensando em arriscar.
Mas sem querer sair do mar,
Que é o meu meio.
Que é o meu fim.
Mas faço previsões olhando as estrelas,
Que são muitas.
Tantas que me confundem.
E não sei se vejo certo
O que está por perto,
O que está sobre mim.
Mas olho mesmo assim,
Com vontade de entender,
De compreender.
Com vontade de abraçar,
De acertar,
Ou errar,
De me soltar.
Só não sei onde vou parar,
Não sei se vou parar
De vagar.

19/12/2010

O fim da autoridade?

A autoridade é uma forma de poder que se exerce legitimamente a partir de uma atribuição (legitimadora) do próprio grupo social. Vivemos num período em que a autoridade é questionada com maior intensidade do que era até meados do século passado, quando esse questionamento restringia-se à autoridade política. Hoje a crítica se dá a qualquer tipo de autoridade, da paterna à professoral, passando pela autoridade política, profissional, religiosa, acadêmica e outras. A crise de autoridade hoje está disseminada por toda a sociedade.
Ela se deve a uma aceleração da vida e a um aumento da própria capacidade reflexiva das pessoas: somos mais capazes de criticar a autoridade de alguém porque temos mais recursos tecnológicos para acessar conhecimentos hoje que no passado. Os aparatos tecnológicos de que dispomos permitem uma aceleração da vida e uma maior distribuição de poder (e conhecer é poder) na sociedade, fazendo com que a autoridade de alguém também seja instável, porque sujeita à mesma velocidade do fluxo informacional. Hoje, em fração de segundos uma notícia pode correr o mundo, um profissional pode ser desafiado em seu conhecimento ou é possível conversar pelo celular com um amigo que nem se sabe onde está. A facilidade (e velocidade) informacional e de acesso a conhecimentos ajuda a diminuir as penumbras dogmáticas em que se escondia a autoridade num passado recente. Antes a autoridade era auto-justificável e, freqüentemente, se confundia com autoritarismo: “me respeita porque sou seu pai!” Agora a autoridade de alguém é testada imediatamente por uma sociedade mais incrédula e desafiadora (reflexiva), e essa autoridade não se sustenta se não conseguir provar que merece a confiança do grupo social.
O mais interessante e paradoxal é que numa sociedade cética como a de hoje, há uma valorização cada vez maior da autoridade, transformada em mito e mercadoria para consumo, que é também uma forma de desconstrução da própria autoridade já que consumir é gastar, destruir. Desafiamos a autoridade de alguém tentando provar que ela não tem a autoridade que aparenta ou buscando reconhecer o valor dessa autoridade. Quando alguém consegue provar, depois de testada, que merece a autoridade que tem, passa a ser reverenciada sem questionamentos, produzindo um paradoxo: a crise de autoridade é uma forma de desconstrução da autoridade a partir do questionamento; uma vez testada e aprovada, essa autoridade passa agora a ser mitificada e acreditada, dando margem ao surgimento de discursos carismáticos que arrebanham multidões de seguidores. Em meio a uma crise generalizada de confiança e autoridade, as pessoas ficam suscetíveis à crença no discurso de uma autoridade que fora provada e aprovada, transformando-a em guru, amigo(a) ou cônjuge. Afinal de contas, num período de escassez de autoridade, viver junto a uma é um luxo. É o consumo do exótico.

18/12/2010

Ensino-aprendizagem e vice-versa

Woody Allen, numa cena esplendorosa de seu filme Crimes e Pecados, leva sua sobrinha ao cinema e na saída, enquanto esperava um taxi em meio a uma chuva torrencial, vira-se pra ela e diz que iria "lhe dar a lição do dia: não ligue para o que os seus professores disserem, não preste atenção. Apenas veja como são. É assim que aprenderá sobre a vida". Que peso, não? E que verdade!
Se todos os alunos resolvessem seguir o conselho de Woody Allen, daríamos menos valor aos conteúdos desenvolvidos em sala de aula e mais atenção às relações sociais. Mas, por outro lado, quanta frustração não seria produzida ao perceber-se que a autoridade do professor esbarra em sua própria vida! Embora isso também fosse bom para desconstruir mitos e ilusões.
Melhor ainda seria se os professores também se sentissem alunos, e buscassem conhecer mais. Há tanto por aprender também com os alunos... E se eles soubessem o quanto podem ensinar, limitariam a arrogância professoral. E as aulas seriam mais dialoguais, mais participativas, mais humanas. Quem sabe não começamos a mudar essa relação de ensino-aprendizagem?

17/12/2010

Pensar, escrever e publicar

I. Pensar.
Nem tudo o que penso, escrevo.
E me arrependo de não anotar um lampejo,
Que vem à mente,
Repentinamente.
Já cheguei a dormir com um caderno do lado,
E acordava de noite inteiramente atordoado.
Mas achei que fosse muita obssessão
E abandonei a anotação.
Como ler,
Estudar,
Pensar,
Observar
E pesquisar,
São a minha transpiração,
Às vezes é impossível resistir à inspiração.
Mas nem sempre ela vem,
E sinto uma falta danada quando fico sem.
É como se ela me desejasse do jeito que sou,
Do jeito que estou.
E chegasse nas pontas dos pés,
Sem se anunciar,
Pra me estimular.
Ela vem bem devagar,
Como se quisesse me enfeitiçar
Pra tirar minha razão
E me dar uma criação.
E crio a expectativa de que ela volte,
Se solte
E não se vá.
Será que dá?

II. Escrever
Nem tudo o que escrevo, publico.
Dez por cento do que escrevo está protegido.
Embora não saiba de que,
Nem de quem.
Guardo algumas idéias pra me preservar,
Pra não escandalizar.
Gostaria de ser mais livre pra pensar e escrever.
Mesmo sem ser ouvido, tenho tanto a dizer...
Preciso tanto de você!...
Mas esse controle do escrito
É algo que foi produzido.
E pior, é algo que foi consentido.
E hoje sofro pra me desconstruir,
Para produzir e dividir.
E tendo a achar que ninguém vai se importar,
Que ninguém vai gostar,
Que sou muito elementar.
E luto contra mim mesmo,
Contra a dor de ser eu mesmo:
Responsável e controlado.

III. Publicar
Nem tudo o que publico, me identifico.
Há texto esquisito.
E não são poucos,
São loucos.
Loucos dos dois lados,
Por parte de quem escreve
E por parte de quem lê.
Ou melhor, de como se lê.
Quando vejo um comentário,
Reparo como é libertário
O olhar do lado de lá.
E mesmo que não tenha querido dizer
As coisas soam como se tivessem sido ditas.
E aquilo que queria fazer,
Fica pra trás sem ninguém saber.
Por isso é preciso afinidade,
Entre mim e você.
Ou então,
Faça a sua tradução.
E me liberte da tradição.
Identidade é liberdade,
Do leitor.
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Um dia tomo coragem e vivo com mais libertinagem, libertando ainda mais meus pensamentos e sentimentos. E não me envergonharei de publicação em que não haja identificação. Verei tudo como criação e situação.

16/12/2010

Embarbar

Minha barba toma minha cara,
E eu não faço nada.
Ela contorna a minha boca
Impedindo a minha fala.
Sobe margeando a orelha
E vai até à olheira.
E se esparrama no pescoço,
Atrapalhando meu almoço.
Minha barba esconde a minha cara
E mostra a minha alma.
______________________________
Imagem: Auto-retrato do artista Henri Matisse feito em óleo sobre tela. (1906)

15/12/2010

Será que se quer uma justiça democrática e acessível?

Meu objetivo aqui é refletir sobre o artigo do professor João Baptista Herkenhoff, publicado na edição de ontem de A Gazeta. Quero tecer críticas a um de meus inspiradores, o professor Herkenhoff, ciente de que no Brasil o debate acadêmico é visto como ataque pessoal. Mas não comungo dessa idéia.
Herkenhoff aponta em seu artigo quatro condições para uma justiça democrática: 1) justiça acessível a todos, pensando o judiciário como um espaço público; 2) diminuição do formalismo exigido nos trajes dos frequentadores do judiciário, contextualizando o judiciário à nossa realidade desigual; 3) redução do hermetismo da linguagem jurídica, simplificando a linguagem do direito para uma melhor compreensão de seus enunciados; 4) decisões judiciais motivadas, o que, de certa maneira, remete ao primeiro ponto, tornando o judiciário um espaço público, controlado externamente pela sociedade a partir das decisões motivadas dos magistrados.
As condições acima apontadas poderiam ser agrupadas em duas grandes barreiras que dificultam o acesso à justiça: a cultura personalista brasileira (primeira e quarta condições) e as linguagens descontextualizadas do direito brasileiro (segunda e terceira condições) – linguagem visual (roupas dos profissionais do direito e arquitetura dos “palácios” da justiça), oral (uso do latim e de termos que assumem definições próprias para o direito) e escrita (decisões judiciais não motivadas, como se viessem de uma autoridade divina inquestionável).
Minha contribuição aqui é integrar essas duas grandes barreiras, como duas faces de uma mesma moeda. De um lado, temos um estado brasileiro (e o judiciário é um dos três poderes do estado) historicamente montado por grupos elitizados da sociedade brasileira que definem, sem participação popular, as mudanças institucionais consideradas necessárias para implementação de mudanças sociais. Isso produz um grupo dirigente que se vê apartado do restante da sociedade (povo). Esse fechamento dos grupos sociais dirigentes acontece também no judiciário, tornando-o distante da realidade social e resistente a controles externos de suas atividades.
De outro lado, temos um direito que quando produz e reproduz linguagens exóticas e esotéricas (que começam a ser aprendidas e apreendidas nas faculdades de direito), distancia-se dos cidadãos comuns, reforçando o papel prestigioso das profissões jurídicas na condução dos processos demudança social, de novo sem participação popular.
A questão é: será que se quer uma justiça democrática e acessível? Será que as profissões jurídicas não se organizam para defender, corporativamente, seus proprios interesses visando a manutenção de seu poder social? Se a resposta a essa última questão for positiva, como demonstrarei em outro artigo, temos na ética profissional do direito um espaço de reprodução de classes, tornando o acesso a justiça mais uma retórica do direito.
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O artigo do professor Herkenhoff está publicado em: http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2010/12/722668-justica+democratica+e+acessivel.html

14/12/2010

Além

Hoje, nada tem valor.
Nada tem mais valor.
Nada tem mais valor
Que você.
E nem sei como dizer.

Se alguma coisa faltar na mesa,
Nem vou sentir.
Mas sem você,
Não dá pra ser.
Não dá pra viver.

Você vai e me leva junto.
Você vem e me deixa mudo.
E busco uma razão que me faça feliz.
E busco uma razão que eu faça feliz.
E não consigo ir além.
Além de você.
Só eu.
Só com você.

13/12/2010

Sobre quebra-quebra de ônibus e cultura política brasileira

Na semana passada a imprensa divulgou amplamente notícias de violências de grupos da sociedade brasileira contra o poder público. O caso mais grave, sem dúvida, foi o da ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, o que justificaria um artigo só para tratar daquela questão. Mas no artigo de hoje pretendo refletir especificamente sobre o problema do quebra-quebra de ônibus na Grande Vitória relacionando-o à cultura política brasileira. Para isso, vou argumentar que a destruição de ônibus é legítima, embora não seja desejável.
Levando-se em consideração o problema do protagonismo político da sociedade brasileira, que é tradicionalmente vista como uma sociedade politicamente apática – que não participa efetivamente da arena política e não luta por seus direitos – é preciso considerar que destruir o patrimônio público, como foi feito pelos manifestantes semana passada, não é exatamente um sinal de apatia ou comodismo. Seria mais cômodo para esses brasileiros ficar em casa esperando que a solução do seu problema de transporte e de renda – já que seu orçamento mensal estará comprometido por suas faltas e seus atrasos ao trabalho – viesse de cima para baixo – do estado, dos patrões, do judiciário ou mesmo de Deus. Convenhamos, poucos se disporiam a tomar as ruas e promover cenas de enfrentamento com a polícia e destruição de patrimônio público, expondo-se à violência policial, aos olhares atentos dos jornalistas e cliques rápidos de repórteres fotográficos, senão para lutar por um bem que se considerasse maior: a subsistência própria e familiar. Digo isso para desarmar desde já olhares preconceituosos e criminalizantes sobre o quebra-quebra realizado na semana passada.
A história brasileira está cheia de exemplos de movimentos sociais contestatórios, desde os mais pacíficos aos mais violentos, e todos com um engajamento inquestionável de grupos da sociedade militando pela resistência política e transformação social. Outra coisa que há em comum entre esses movimentos sociais é que, com raras exceções, todos eles foram sufocados ou dissipados pelo aparato de violência estatal – a violência permitida –, seja em nível municipal, estadual e/ou federal. Do movimento elitista conhecido como Inconfidência Mineira ao maior movimento popular do Brasil hoje, o MST, passando por movimentos messiânicos como Canudos e Contestado e movimentos populares ainda pouco conhecidos como o dos atingidos por barragens e o dos seringueiros e outros habitantes de florestas, entre outros tantos, os movimentos sociais no Brasil sempre foram vistos como uma ameaça à ordem.
Entre nós a democracia é historicamente identificada com bagunça, confusão ou desordem, em suma, como negação da ordem. De uma ordem que está no lema de nossa bandeira – porque inscrita antes em nossa cultura política – e que precisa ser mantida a qualquer custo, justificando inclusive a existência de um estado fortemente aparelhado para garanti-la para a obtenção do conseqüente progresso. Entre nós há uma crença de que da ordem advirá o progresso. O que significa a contrario sensu, que não haveria possibilidade de experimentar o tal progresso a partir da democracia, já que para nós ela carece da disciplina necessária para realização do diálogo.
Entendo democracia – a partir de uma abordagem sociológica – como espaço social que tende a valorizar conflitos e dissensos como importante patamar inicial para construção de pactos sociais mínimos de existência (ou constituição) da própria idéia de sociedade como coletividade. Quer dizer, sem conflitos não há democracia; toda relação entre iguais – e os cidadãos são os iguais, os sujeitos de direito de uma sociedade – é, necessariamente, uma relação conflituosa. E isso não é ruim, pelo contrário, nos faz engendrar formas de administrar nossos dissensos para construção de consensos.
Voltando ao problema do quebra-quebra de ônibus – e atenção que estou considerando isso um problema – para deixar mais claro meu argumento nessa reflexão, a destruição do patrimônio público pode ser lida como um grito desesperado de uma sociedade que não encontra espaços sociais disponíveis para manifestação direta de suas insatisfações. Não temos espaços sociais democráticos que absorvam as demandas sociais de alguns grupos da sociedade para constituição de consensos. Isso faz com que toda vez que grupos sociais menos prestigiosos da sociedade – populações marginalizadas e/ou residentes em periferias urbanas ou espaços rurais – precisem chamar a atenção para a necessidade de dialogar sobre suas próprias condições, o façam de forma violenta. Na verdade não é uma violência intrínseca a esses grupos sociais – como alguns pretendem sugerir –, mas uma violência “natural” ou lógica de uma sociedade que não consegue – ou não quer – construir canais de comunicação para compreensão dos problemas vividos pelos grupos sociais periféricos e incorporação desses grupos sociais na arena democrática.
Quero, então, chamar a atenção para a ausência de espaços democráticos de contestação na sociedade brasileira, o que dificulta a sociedade de contestar de forma direta, devendo fazê-lo, sempre que preciso, de forma mediada ou indireta, via judiciário, Ministério Público, políticos, enfim, por aqueles que já detêm o poder numa sociedade tão desigual como a nossa. Essa atuação política mediada, tutelada, da sociedade brasileira é, por um lado, uma forma de cooptação das bandeiras de lutas sociais para dentro da burocracia estatal, sufocando a legitimidade dos movimentos sociais, e, por outro lado, de reprodução/manutenção dos lugares sociais de poder, mantendo a hierarquia que caracteriza a nossa sociedade.
Se o discurso da necessidade do acirramento da repressão estatal aos grupos sociais que promovem manifestações políticas violentas aparece como dominante na mídia, apoiado pelas classes médias e altas, isso se deve muito mais à nossa incapacidade de reconhecer os problemas sociais pelas quais passam essas pessoas que parecem tão distantes de nós. Embora estejam cotidianamente a nosso lado – como empregadas domésticas, pedreiros, faxineiras, babás, atendentes etc. – esses brasileiros sofrem duplo problema: são vistos como cidadãos de terceira classe e não dispõem de instrumentos adequados para manifestação de seus próprios interesses. O resultado é o aparecimento do discurso fácil da criminalização dos movimentos sociais e da pobreza como forma de contenção de uma violência cujas causas não estão nas classes tidas como violentas, mas na própria estrutura social desigual em que vivemos.
A violência produzida por grupos sociais menos abastados, destruindo patrimônio público, deve ser vista como uma reação legítima dos que não se vêem como iguais, mas como sub-cidadãos, que percebem que a democracia não se realiza em nossa prática social e que o poder público privilegia algumas classes em detrimento de outras. A ausência do poder público na vida dessas pessoas – e o transporte coletivo é uma das poucas manifestações do poder público em suas vidas – produz a reação violenta assistida na semana passada. E se essa violência é uma reação, isso significa que enquanto não mudarmos as formas de reconhecimento dos problemas vividos por esses grupos sociais subalternizados, provavelmente veremos ainda outras tantas cenas legítimas, embora não desejáveis, de quebra-quebra de patrimônios públicos. Esse problema é nosso!
______________________

12/12/2010

Demônios

Meu objetivo não é ofender ninguém, mas hoje gostaria de falar dos demônios. Se não for pra você, nem leia. Vou seguir escrevendo para outros demônios. Agora, se me perguntar por que demônios resolvi escrever sobre isso, não vou saber responder. Acho que estava inspirado, quer dizer possuído.
Demônios existem. Eu mesmo conheço alguns. Eles estão por aí. E foram criados para serem nossos bodes expiátórios. Embora não saiba por que associar os demônios a essa figuras simpáticas e tipicamente nordestinas que são os bodes? Deve ser por causa do chifre pontiagudo. Mas vamos em frente, que de boas intenções o inferno está cheio. Os demônios produzem o mal. Então, quando realizamos o mal, também somos demônios. Mas preferimos colocar a culpa nos demônios (nos outros demônios, os invisíveis). É menos penoso pra nós quando nos colocamos como vítimas de um movimento espiritual (ínfernal) que conspira contra nós.
Demônios são seres comunicativos e antenados (e antenados aqui não tem relação com os chifres): são ligados em tecnologias de ponta e participam de redes sociais. São orkuts e facebooks demoníacos. Assim ficam sabendo dos problemas das pessoas e aparecem na hora certa para dar aquela forcinha, aquele empurrãozinho abismo abaixo.
Uma coisa que me intriga é como os demônios possuem também objetos? Há o demônio da garrafa de cerveja (e de outras bebidas alcoolicas), o demônio do cigarro (e de outros tipos de fumos, se bem que estejamos em pleno furor anti-tabagista), o demônio da TV (aberta, porque a TV fechada é um paraíso), o demônio do jogo (incluindo as bolsas de valores), o demônio da saúde pública (um dos mais assustadores) e o demônio do consumismo (e de outros ismos). E há outros tantos demônios encarnados em coisas materiais as mais variadas. Todos sempre querendo fazer o mal a algum incauto.
Demônios são também solidários. E nesse aspecto, temos muito a aprender com eles. Por exemplo, quando abrimos uma garrafa de cerveja, libertamos o demônio preso ali. Depois de beber algumas garrafas, os demônios libertos se juntam para libertar o demônio que está preso dentro de nós. E aí soltamos a língua (e outras coisas mais). Quando estamos possuídos pelos demônios das garrafas de bebidas alcoolicas, começamos, por exemplo, a falar até sobre o que nem sabíamos que sabíamos. E soltamos o corpo e o pensamento. Libertamos o mal que nos consumia em oculto. O azar é do nosso companheiro de mesa. Mas como ele, provavelmente, estará bêbado também, não tem problema nenhum, ninguém se fere. O problema é beber junto com quem não está bebendo bebida alcoolica, aí o pau come. Não sei porque usei essa expressão para finalizar a frase anterior? Talvez sejam os demônios do sexo se manifestando. Então vamos falar dessa casta também, pra não criar mais confusão entre os demônios.
Demônios são seres altamente eróticos. E aqui temos mais um tanto a aprender com eles. Os demônios são especialistas em putarias e sacanagens. Eles aumentam nossa libido e nos fazem amantes ousados e tarados. E quem entende de sexo sabe que imaginação e disposição são fundamentais.
O pior dos demônios é que eles são fofoqueiros, mas também ninguém é perfeito. Os demônios, que, como vimos, são solidários e afixionados em teconologia, ficam esperando a primeira oportunidade para falar pra todo mundo (pelo celular e/ou twitter) quem foi o último possuído e para culpar os seres humanos, que são errantes, por suas atitudes demoníacas. E isso não é legal porque faz a gente se envergonhar, e se arrepender, abrindo espaço para o discurso religioso e para a venda do perdão.
Pra finalizar, já que toquei nesse assunto (religião), vem a pior parte: demônios também vão para o céu. Não como demônios, mas como redimidos, perdoados, ex-demônios. Vão disfarçados porque sabem que não entrariam com suas próprias caras e roupas. E continuam a atuar livremente de lá de cima, influenciando (e até dirigindo) também os líderes religiosos, que os chamam de Legião (pra tristeza dos adoradores do rock dos infernais meninos de Brasília).
Em tempos de TIM (Time Is Money), tudo é vendido (até a mãe). E os demônios (que não têm mãe) são negociantes natos. A liberdade é o produto mais caro vendido pelos demônios. E quem não quer ser livre? Então, estamos lascados, porque teremos de pagar o preço da liberdade. A vida não é um inferno? E os demônios somos nós.
Você me perdoa?
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Inspirado no (ou possuído pelo) discurso de Chico Science, em "Monólogo ao pé do ouvido", primeira faixa do disco "Da lama ao caos". Ele diz o seguinte numa parte: "O medo dá origem ao mal/O homem coletivo sente necessidade de lutar/O orgulho, a arrogância, a glória/Enchem a imaginação de domínio/São demônios os que destroem o poder bravio da humanidade".

11/12/2010

Ouvir

Escrever é um meio de falar. Nem sempre a gente consegue escrever. Nem sempre a gente quer falar. Mas nem é preciso escrever sempre. Às vezes a melhor opção é ficar quieto. O melhor é ouvir. Tenho ouvido muito: barulhos, murmúrios, lamentos, gritos, sussurros, silêncios... E soam como músicas, que alegram e angustiam a alma. Mas sigo firme, ouvindo os zunidos,  prejudicando os ouvidos e construindo os destinos.
Mas a alma ouve com mais calma. E encontra alento nos sons dos outros, nas cantorias desafinadas e nas adequadas. E isso motiva a virada. Sinto muito a dor, in-ten-sa-men-te. E sinto muito pela dor. Sinto muito, amor. Caetaneando e cantando, "pra que rimar amor e dor..."? Mas é assim que se faz a todo instante. E sei que é sufocante.
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Ouça meu pedido. Ouça "Pedido de Casamento", de Arnaldo Antunes.

10/12/2010

Transtornos de uma alma cansada

Deito pra dormir e não consigo, fico ouvindo o barulho do meu cabelo a crescer. E meu estômago a ferver. E fico imaginando como poderia ser o que não foi, nem nunca será. E sinto o diamante duro meu peito dilacerar. De cima abaixo; de lá pra cá. Vai. Vai que vou atrás. Até a porta bater na minha cara. E fico do lado de fora andando em círculos, buscando meu próprio rabo. Até me cansar e deitar. Nesse corpo fraco, as idéias vem e vão. E apago de lado com a cara no chão. E ninguém me acha são. Se você também acha que esse texto não tem nexo, nem sexo, ou que estou louco, é porque não esteve em minha sala nesses dias. Minha sala é o abrigo violado do meu ser. Mas as coisas vão melhorar. E só me pergunto, pra quem?
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Imagem: Homeless (morador de rua, sem-teto). A indignidade não está na pobrreza, mas na desigualdade. Uns com tanto, outros com tão pouco.

09/12/2010

Tragédia

Esse conto é quase real. Mas não é como outros, não é igual. Quem gosta de ver as coisas retas e organizadas, melhor evitar a leitura dessas linhas tortuosas. Trata-se de um conto cheio de sangue, crueldade e desilusão. Mas quem quer uma cena real, leia até o final.
É a história de um casal, que não vai chegar ao final. Ele estava elaborando um plano e ela estava comemorando mais um ano. Chegaram em casa as três. E ela saiu as seis, de uma vez. E nunca mais se ouviu falar, daquele casal do oitavo andar. Mas voltemos às três, para reconstituir o que se fez. Ao abrir a porta e encontrar a sogra, ele começou a esbravejar. A sogra saiu bem devagar. E a briga se transformou em acusar. Ela sofria com o que ouvia. Ele se deleitava com o que falava.
Ele amarrou a mulher no canto, com a ajuda do seu santo. E foi amolar a faca, com toda raça. E quando chegou a hora de imolar, ele parou para mijar. Foram alguns segundos, suficientes para que ela desse uns pulos. Quando voltou pra sala, ela já não estava lá. Havia pulado até a sala de jantar. Ele a encontrou no chão e teve ali sua última relação.
No meio da embolação, deixou cair a faca da mão. Mas nem percebeu, porque só pensava no que era seu. E queria gozar, sem se refrear. Mas ela, muito esperta, fez a coisa certa: sussurrou palavras no seu ouvido, aumentando sua libido. E quando veio o gozo afinal, veio também o dia final. A faca que estava no chão, atravessou o pescoço dele numa fração. Golpe certeiro, derradeiro. Ele caiu de cara no chão. E com um sorriso no rosto, virou um homem morto.
Ela que antes estava celebrando, saiu daquela casa se arrastando e chorando. Ela foi presa, julgada e abssolvida. Agira em legítima defesa, afinal estava amarrada e sendo estuprada. E ele que queria se livrar dela, conseguiu. Agora está longe, nem sei onde. Mas ambos estão na pior: ele porque queria ter ficado e ela porque não queria sua vida ter tirado. O ser-humano é um bicho desumano. Pede para a relação acabar, mas quando isso acontece, começa a reclamar. Vai entender!
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Baseado numa sabedoria popular: "quem planta vento, colhe tempestade!"

08/12/2010

Verdade e ilusão

Será que a verdade é também ilusória quando se vive uma ilusão?
Ou será que a verdade está fora, esperando encontrar alguma razão?
Qual a razão da verdade que se quer ilusão?
E como iludir a verdade sem iludir a razão?

Se a verdade não existe, a razão também não.
Porque quando se busca a verdade é a que a razão quer conhecer,
É a razão que se quer (ou se pode) estabelecer.

Se Deus não existe a verdade total também não.
E aí, o fim da verdade total não elimina a razão.
Prlo contrário expande a razão.
Mas se Deus existe, vamos em busca de uma verdade parcial.
E aí, a razão é também crucial.
Assim, matar a verdade como ilusão é ideologia.
Ideologia para fazer crer que estamos livres para criar ilusão.
Aí, quem cria ilusão não vai além de conformar-se a um padrão.
Mesmo que a um outro padrão.
Então, ficamos sem opção?

Tudo isso aponta para a liberdade,
Que está antes da verdade,
E que me permite viver ou não uma ilusão.
Mas quando não se é livre para escolher
Ou quando não estão claras as opções,
Porque ocultada a verdade pela razão,
Como não viver uma ilusão?
Esclarecer a verdade (racional ou parcial) é sempre abrir para a negociação.
E é nesse campo que entra a liberdade de viver ou não uma ilusão.
Quero dizer, com tudo isso, que viver uma verdade ou uma ilusão,
Deve ser sempre uma questão de opção.
Do contrário, teremos dominação.

Pra terminar, deixo de lado minha predileção
E volto àquela velha questão:
A fome é uma verdade ou uma ilusão?
E a intolerância?
E o desemprego?
E a violência?
E tantas outras formas de exploração?
Então, para de dizer que a verdade é uma ilusão!
Pode ser pra você, mas pra quem sofre, não.
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A verdade existe. Seja a sua ou a de Deus. Querer matar a verdade é ideologia e também produz alienação. Só não dá pra viver achando que não se é responsável pela maneira como se vive e como se lê a verdade. Não se trata de razão, mas de liberdade. Descansa em paz!

07/12/2010

Uma breve história de... duas pessoas juntas

Essa é a história de Norberto e Santinha. E por se tratar da história dos dois, vamos evitar falar de cada um em particular. Essa história pode ser parecida com milhares de outras que estão sendo produzidas por aí.
Eles já se conheciam. Ou parecia. Havia temor e respeito entre eles. O temor se foi. O respeito continuou vivo. Um já esperava o outro, mas não sabiam. Idealizavam coisas parecidas e encontraram um no outro a materialização de suas projeções.
Apesar de se encontrarem e se encaixarem bem, percebiam que a distância que os separava, também os levava além: tentaram a surdina, mas não foi suficiente. Tentaram a visibilidade, mas não ficaram a vontade. Resolveram, então, terminar e suportar a dor que iria começar.
Seguraram por um bom tempo, sempre remoendo. Até que o fim da angústia chegou. E veio num lamentoso torpedo, que nem sei quem mandou: "Sds". Foi o que precisavam para a guerra recomeçar, para os torpedos começarem a bombardear, de lado a lado. E o coração dos dois, que já andava frustrado e magoado, começou a se quebrar.
Foram anos esperando, sem nenhum retorno, sem nenhum momento em que seus pensamentos não estivessem um no outro. Mesmo em meio à labuta, ambos pensavam em como poderia ter sido a luta conjunta. Agora já era tarde, mas resolveram tentar. Cada dia uma dificuldade, cada dia uma felicidade. E no fim das contas, quando nem se deram conta, já estavam juntos há trinta anos, três anos, três meses, sei lá. O que importa é não sentir o tempo passar. Porque o que se faz sem peso é feito com desejo, é feito com ardor, efeito do amor.
No dia do aniversário de namoro ele recebeu um torpedo dela: "Parabéns, meu nego, por chegarmos até aqui. Nunca me senti tão bem com alguém como me sinto com vc. Parece que fui feita para ficar abraçada com vc!" Após ler a mensagem, ele deu um sorriso, levantou a cabeça com os olhos abertos para os céus, como quem agradecesse a Deus pelo amor da amada, e gritou o nome dela bem alto, esquecendo onde estava. Os pedestres o olharam com curiosidade, achando que se tratava de alguma insanidade. Ele se recompôs e pôs-se a responder: "obrigado vc, por ser vc. T amo!"
Mais tarde, naquele mesmo dia, aconteceu o que não se queria: eles discutiram. Mas descobriram que o conflito faz parte da vida, que toda relação entre iguais é assim. E aprenderam também que não se deve dormir sem se redimir. E lá se foi mais um torpedo: "você tem toda razão. Sorry, baby. Continuo t amando". Antes mesmo do dia acabar recebeu sua mensagem mais espetacular: "Na verdade vc q tem sempre razão...e acho q mesmo se não tivesse eu t amaria! bj, meu nego".
E foi assim, em meio ao bombardeio de torpedo, que o amor recomeçou e se intensificou. Como terminou? Igual a todo fim, com um ponto final.
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Mais importante que idealizar é realizar. Realizar-se na (e com a) outra pessoa, na primeira pessoa do plural. Não gosto de finais felizes porque são muito excepcionais. Gosto de meios felizes. Meios inteiramente felizes, mesmo em meio aos deslizes.

06/12/2010

Maria bonita!

Eu que não costumo publicar textos de terceiros nesse blog, hoje rendo homenagens a Domingos Oliveira, pelo texto poético que escreveu para celebrar o ensaio fotográfico de Maria Ribeiro, mulher de Caio Blat, na Trip de novembro. O texto é tão lindo quanto o ensaio. Faço minhas as palavras do cineasta, que publico abaixo. Não é pra ler, é pra degustar ao som da música "María en la playa", de Compay Segundo ("Ay María ven"). Gostaria de poder escrever um texto assim um dia. Poesia pura! Maria bonita! Pena que tudo que é sólido se desmancha no ar.

É difícil escrever um artigo assim sem o marido ficar com ciúme. Preciso não olhar muito para as fotografias. Caio Blat, não sei como dizer, mas afirmo que você pode se considerar bem aquinhoado pelo destino. Apesar de pequenina, MARIA sem dúvida apresenta uma paisagem de muitos vales e montanhas, a ser enfrentada por um explorador sem medo e com muito tempo disponível. A impressão que me da é que cada centímetro de MARIA pode se transformar em inesquecíveis aventurosos quilômetros.
Casamentos costumam falhar por excesso de rotina. Uma vez conhecido o brinquedo a criança não quer mais, quebra-o provavelmente de ódio por não ser mais novidade. A novidade é a alma do negócio, a fonte do prazer. No amor e em outras volúpias congêneres. A fonte do prazer não é o instinto, é o conhecimento.
E, nesse ponto, MARIA oferece um privilégio raro para qualquer homem, um verdadeiro milagre. Ele pode ser polígamo sem ser infiel! Porque MARIA são muitas. Dá sem dúvida trabalho manter tantas bolas no ar. Porque se o semáforo abre antes da hora uma delas rola pelo chão e um espertalhão pode roubá-la. Quero dizer que MARIA é um malabarismo que principia na palma da minha mão.
Ela é basicamente sete. São sete mulheres todos os dias. Cansativo, mas muito interessante.
Primeira: MARIA mulher. Olhai agora as fotos e segurai-vos na cadeira, incauto leitor. Indubitavelmente é papa-fina, leite de cabra, delírio.
Segunda: MARIA intelectual. Ela sabe de tudo. Mulher bem informada, cheia de senso de humor. Ou seja, não é fácil. Rigorosa, radical, exigente, poucos sócios em seu clube. Capaz de transformar qualquer papo cabeça em aventura romântica. Ou em duelo de morte.
Terceira: MARIA artista. Atriz e cineasta de valor, que fez um documentário sobre a minha modesta pessoa que está por estrear, intitulado Domingos. Não é uma gracinha? Diz ela que fez porque me ama, porque um dia entrou na minha casa para ler uma peça e deu vontade de morar lá, ficar para sempre. Somos completamente diferentes, eu e ela. E iguais ao mesmo tempo. Daríamos um casamento extravagante se não fôssemos ambos comprometidos. Quero dizer, MARIA, que se eu tivesse muitas vidas, te dava uma.
Quarta: MARIA mãe. Ela é louca pelo Bento e pelo João, na verdade sem tempo disponível para o que não seja deveres maternos. Porém, boas mães é tudo o que verdadeiros homens sempre almejaram. Para si, é claro.
Quinta: MARIA bonita. Daquela beleza que se alimenta na persistência da observação. Quanto mais olhamos, mais bonita ela fica. Realmente o inventário das belezas de MARIA vai do topo da cabeça ao fundo dos pés.
Sexta: MARIA amiga. Fiel e dedicada guardiã de amizades. Mulher de amigo meu para mim é homem, mas mulher amiga minha é mulher mesmo.
Sétima: MARIA Ribeiro. Mix pós-moderno de todas elas. Fusão de corpo e alma. MARIA.
Eu diria que MARIA é magia, calmaria, aristocracia, acrobacia, euforia, nostalgia, anarquia e alegria. Facilitaria a poesia se todas as mulheres chamassem MARIA.
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Domingos Oliveira é ator, dramaturgo e cineasta. Dirigiu, entre outros, Separações (2002) e Todas as Mulheres do Mundo (1966)
O link para o ensaio completo é o seguinte: http://revistatrip.uol.com.br/revista/194/trip-girls/maria-ribeiro.html
Depois lembrei-me de outra música que bem poderia embalar a leitura do texto acima: Beautiful María of my soul (Bela María de mi alma), também cantada por Compay Segundo, embora não seja de sua autoria. Há uma versão dessa música em que Compay canta com Antonio Banderas. A letra (em espanhol) é linda e termina expressando um amor inapagável: "Si no te vuelva a ver/No dejarás de ser/La bella María de mi amor".

05/12/2010

Reflexões poéticas sobre o tudo

Ter é o primeiro passo para perder.
E nem é preciso ter,
Basta achar que se tem.
A liberdade começa quando somos capazes de libertar.
Isso é tudo!
..................................
Se a gente não tivesse nada, teria de conquistar tudo, todo dia. A propriedade é nossa desgraça!

04/12/2010

Sorriso

Meu belo sorriso se foi.
E fico pensando onde estará,
Quando voltará
E se ficará?
Quem não gostaria de ter de volta sua alegria?
Quem não queria sorrir todo dia?

02/12/2010

E que outras fossem menos

Queria que algumas pessoas fossem mais resignadas
E que outras fossem menos.
Queria que algumas pessoas fossem mais humildes
E que outras fossem menos.
Queria que algumas pessoas fossem mais bonitas
E que outras fossem menos.
Queria que algumas pessoas fossem mais sinceras
E que outras fossem menos.
Queria que algumas pessoas fossem mais comunicativas
E que outras fossem menos.
Queria que algumas pessoas fossem mais honestas
E que outras fossem menos.
Queria que algumas pessoas fossem mais sensíveis
E que outras fossem menos.
Queria que algumas pessoas fossem mais ricas
E que outras fosssem menos.
Queria que algumas pessoas fossem mais talentosas
E que outras fossem menos.
Queria que algumas pessoas fossem mais humanas
E que outras fossem menos.
Queria que algumas pessoas fossem mais compreensíveis
E que outras fossem menos.
Queria que algumas pessoas fossem mais corajosas
E que outras fossem menos.
Queria que algumas pessoas fossem mais apaixonadas
E que outras fossem menos.
Queria que algums pessoas fossem mais tolerantes
E que outras fossem menos.
Queria que algumas pessoas fossem mais preocupadas
E que outras fossem menos.
Queria que algumas pessoas fossem muitas coisas mais
E que outras fossem menos.

Se outras fossem menos,
Eu seria mais.
Se outras fossem mais,
Eu seria menos.
Equilíbrio não é harmonia,
É tensão e poesia.
 \ssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssddccc (Tito again)
Imagem: Tres Mujeres, acrílico sobre tela de Gabriela Rota.

01/12/2010

Dicão

Essa é para meu amigo Dicão, que não me conhece, mas que considero um irmão. O que preciso falar aqui não é ilusão, embora possa parecer ficção. São duas realidades buscando a verdade, sedentas por afinidade. A história de Dicão começa lá atrás, quando conheceu alguém que lhe tirou a paz. Alguém que não se faz. Uma raridade que se tornou uma beldade. Um lindo projeto de mulher, que ficou melhor. Ela ainda é, uma linda mulher. Mas, voltemos a Dicão, que ficou algumas vezes com aquela beleza até que se separaram com frieza. Não se viam com frequência, mas tinham alguma convivência. Dicão tocava sua vida e, de repente, recebeu aquela visita. Cheia de amor pra dar. Tanto amor que consigou engravidar. Depois que engravidou, ela o abandonou. E voltou pra sua casa, voltou pra onde estava. Mas nada mais era como deixara. E pagou caro por sua maneira ousada. Dicão ficou atordoado, pior do que era encontrado. Com o filho roubado e o coração destroçado. Se perguntarem pra ele como tudo aconteceu, não saberá dizer como se sucedeu. Foi tudo muito rápido, como o efeito de um ácido. E ele que costumava usar drogra nunca tinha experimentado antes uma onda assim, sem fim. Mas quer saber de uma coisa, não tenho pena de Dicão, que sofreu o quanto fez sofrer. E recebeu o que estava a merecer. Ele é atlético, enérgico e acéfalo. Estava com a cabeça onde não devia, onde não se via. E pagou pelo que fez, pelo que nem fez. E ela leva mais uma bola de ferro nos pés. E um bebê nos braços. E ninguém a quer.
Final duplamente infeliz, como se quis.

29/11/2010

Cacos

Junto com as mãos os cacos que sobraram de tudo
E sinto o corte profundo que faz sangrar sem chorar.
Que faz sangrar e chorar.
Faz chorar sem sentir,
Sem ouvir.
E uso os cacos pra ferir você,
Pra dilacerar você e eu.
Rasgo na carne o mal que me prende.
Rasgo na carne o mal que me liberta.
E se não for para o bem,
Será para o mal.

26/11/2010

Sem vergonha

Há um menino buscando um amigo.
Querendo um abrigo.
Essa amizade é impossível,
Ela é temível.
Mas ele é terrível,
E vai atrás.
Sem vergonha nem culpa,
Na paz.
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Inspirado na música "Sem Vergonha", de Cazuza e Frejat. Letra completa e vídeo do Barão Vermelho cantando essa música no Rock in Rio estão disponíveis em: http://letras.terra.com.br/cazuza/1495328/

25/11/2010

Os de dentro e os de fora

Expulsos,
Excluídos,
Excomungados,
Exilados...
Estão todos fora,
Todos perdidos.

Buscando se achar.
(Ou querendo ser achados).

Um dia...

Enquanto você dorme,
Eu penso.
Eu choro.
Eu luto.
E só não sucumbo
Porque sei que amanhece.
E quando isso acontece,
Meu corpo cansado adormece.
E sonho de dia.
Sonho com o dia.
Todo dia.

Um dia...

24/11/2010

Confusão paralisante de uma cabeça fora do lugar

Tenho tanto por fazer e não sei por onde começar.
Tenho tanto pra começar e não sei por onde fazer.
Faço planos sem conseguir executá-los.
Executo planos sem conseguir planejá-los.
E vou me enrolando nos meus traços.
E vou me embolando nos seus braços.
E não sei o que esperar.
Eu só sei esperar.
O fim.

23/11/2010

Procura-se

Procura-se alguém do sexo feminino,
Maior de idade,
Que curta arte
E valorize o erro.
Que conheça seus desejos
E queira satisfazê-los.
Que goste da realidade
Sem perder a sensibilidade.
Que saiba ouvir quem não fala
E diga o que se passa.
Que não traga corrente nos pés
Nem tema o revés.
Procura-se um amor de verdade:
Inteiro e não pela metade.

22/11/2010

Panóptico cego

O panóptico tudo enxerga e nada vê.
O problema é que ele se coloca em você:
Faz suplicar o corpo,
Faz sentir-se morto.
Vigiado.
Quem vê o que não devia,
Nem sabe se confia.
Quem não vê o que queria,
Mantém a fantasia.
Mas às vezes se vê o que temia;
Às vezes se vê o que judia.
E duvida-se da serventia
De saber o que não se queria,
O que não se podia,
Não se devia.

O panóptico tudo enxerga e nada vê.

18/11/2010

Validade vencida

Vi a validade acabar
E não fiz nada pra evitar.
Deixei o tempo passar,
Achando que ia melhorar.

Hoje vivo no bolor,
Respirando esse fedor.
Até morrer?
Preciso mudar.
Antes dele me matar.
Antes de morrer.

15/11/2010

Verdade e liberdade

Queria que todos soubessem a verdade.
Mas como nem eu sei,
Melhor continuarem ignorantes.
A ignorância também é uma virtude.
Porque o conhecimento faz sofrer.

Queria que todos soubessem a verdade.
Mas como nem sei se há verdade,
Melhor continuarem acreditando.
Acreditar é temer pra manter.

Queria que todos soubessem a verdade,
Que não conheço
Nem reconheço.
Mas pra se aproximar de alguma verdade,
Qualquer que seja,
Melhor começarem a duvidar.
E sonhar.
Duvidar é enfrentar para mudar.
E quem sabe, melhorar.

Essa é a verdade:
Liberdade!
________________
Imagem de escravo fugindo, publicada num jornal do Rio de Janeiro, no século XIX. Naquela época prometia-se reconpensa a quem dissesse o paradeiro do escravo foragido. O escravo fugia da opressão do senhor e das condições insalubres da senzala, em busca da liberdade, que frequentemente não vinha, já que viver escondido é tão opressor quanto viver amarrado. Mas numa ponderação de valores, valia a pena correr o risco, enganar para se safar e tentar reconstruir a vida longe dos açoites. A fuga do escravo para os quilombos, ou para qualquer outro lugar, reduzia a falta de liberdade física e político-jurídica a uma falta de liberdade político-jurídica. E isso já era melhor.

08/11/2010

Gosto e não se discute!

Gosto de raciocínios rápidos,
Mensagens subliminares,
Sorrisos simpáticos
E língua afiada.
Gosto do que não sou.

Gosto de vestidos esvoaçantes
E tatuagens exuberantes:
Liberdade e arte.
Gosto do que não tenho.
Gosto do que não tive
(Gosto e não se discute!),
Gosto do que não fui.
Gosto de você
Só.
[][][][][][][][][][][][1903-2011][][][][][][][]

07/11/2010

Desempenho e frustrações

Um intelectual de tradição marxista chamado Guy Débord publicou no final da década de 1950 o livro "Sociedade do Espetáculo", em que criticava as transformações do capitalismo tornando tudo em espetáculo para consumo. A sociedade americana, sociedade do espetáculo por excelência, usa a expressão standing ovation para designar um ritual de aplausos prolongados e de pé (numa expressão de reverência) que se destina a grandes personalidades. Quem já presenciou uma cena como essa não pode negar que seja emocionante. Talvez uma dessas homenagens mais emocionantes tenha sido a despedida de Magic Johnson das quadras de basquete, quando descobriu ser portador do vírus HIV.
Mas o contexto da fragmentação das relações sociais e atomização dos indivíduos em que vivemos alimenta essa nossa carência coletiva por reconhecimento (aplausos) numa sociedade onde a indiferença reina. Por esse motivo, pela busca do reconhecimento, acabamos dando cabo a uma sociedade do desempenho. Mas trata-se de um desempenho apartado de seu sentido de uso, quer dizer, sem levar em consideração o bom desenvolvimento de uma atividade, qualquer que seja ela.
Estamos exageradamente preocupados com nossos desempenhos, mas de uma perspectiva egoísta e alienada: queremos desempenhar bem nosso papel, visando os aplausos, o reconhecimento, e não necessariamente a boa execução de uma atividade. Isso significa que estamos mais preocupados com o fim (reconhecimento) do que com o meio (boa execução de uma atividade). Aí passamos a desempenhar bem em todas as áreas da vida, do sexo à atividade profissional, passando pela religiosidade e a paternidade/maternidade.
Hoje em dia o vazio existencial é tão grande que desempenhamos com maestria nossos papéis para receber elogios e aplausos. Prova disso é que quando esse reconhecimento não vem, nos sentimos amargurados, magoados, deprimidos ou irritados. Ou tudo junto. Isso significa que o sentido da existência tem cada vez mais sido colocado no outro. E como vivemos, paradoxalmente, numa sociedade egoísta, essa atitude acaba gerando muitas frustrações, porque queremos reconhecimento pessoal mas não estamos dispostos a reconhecer o bom desempenho do outro. Isso também é um problema social.

04/11/2010

Louca!

Você é mesmo louca:
Vem buscar minha boca,
Vem pedir meus abraços,
E me dar uns amassos.
E eu que tenho tudo
Fico sempre mudo.
E eu que não tenho nada,
Caio no conto de fada.
E derreto-me sem poder compartilhar,
Sem poder a seu lado caminhar.
Cada momento é finito.
É infinito.

03/11/2010

Lado a lado no caminho

A caminhada é uma aprendizagem.
E como todo conhecimento,
É um sofrimento.
Sofro pra acertar o passo.
Mas se sofro é porque quero com você caminhar.
E porque penso que você quer comigo caminhar.

Para caminhar lado a lado,
É preciso apertar o passo
E desacelerar.
É preciso cadenciar.
Vem comigo?

02/11/2010

Postagem sem título nem razão

Você tem toda razão.
E sofro por não tê-la.

30/10/2010

Atalho

Conhecer alguém,
Envolver-se com alguém,
É tomar um atalho pra longe de si,
Agradar mais o outro que a mim.
E quem disser que aí não há liberdade,
É porque nunca amou de verdade.

Afastar-se de si,
Perder-se na realização dos planos,
E dos sonhos,
Parece ser nosso destino certo.
Ou procurar ter alguém por perto.

Amar é perder-se com alguém,
Perder-se em boa companhia.
Todo dia.
Com agonias e alegrias.
E vale a pena!

29/10/2010

Quando pensar é demais

Relacionar-se dá trabalho,
Nos deixa quebrantado,
Angustiado,
Mas também empolgado,
Renovado.
Pois não há conhecimento sem dor,
Não há pertencimento sem cessão,
Sem cisão.
Não há relação que prescinda de reflexão;
Não há duração sem reconsideração.

Quem foi talhado pra pensar,
Não consegue deixar de matutar.
Assim como quem foi condicionado a viver,
Não quer pensar em morrer.
Ou quem aprendeu a dançar,
Não consegue parar.

Pensar,
Morrer,
Parar,
Parecem carregar em si essa noção estática,
Que hoje apavora a prática.

Evitamos o pensamento
Como evitamos a morte e a inação,
Como forma de alienação.
E preferimos a prática,
A vida e a ação.
E isso produz aceleração:
Pois não há pensamento que possa superar a experiência.

Mas sei bem quando pensar parece demais:
Quando nos faz voltar atrás.
Afinal, em meio a tanta aceleração,
Voltar atrás parece contra-mão,
Quando só temos os olhos no próprio dedão;
Ou quando o adiante se torna obssessão.

Aí, o melhor a fazer é mesmo relaxar.
O melhor é aproveitar,
Como se o feitiço fosse iminentemente acabar.
Vive-se pouco,
Vive-se intensamente.
E deixamos de ser gente,
Deixamos de pensar
E de nos importar.

Mas uma coisa boa de não pensar,
É não se responsabilizar,
É não se dedicar a criar e recriar,
E nem brigar;
É não precisar entender,
Nem ceder;
É não conhecer.

Mas aí volto ao velho dilema anarquista:
Haverá futuro?
Ou, atualizando:
Relacionar-se sem responsabilizar-se
Não é um consumo do outro?
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Pretendo considerar uma resposta possível para essas questões finais na postagem de amanhã, partindo de um paradigma sonhador/idealizador que seja factível/realizável por cada um com cada um, conjuntamente entre nós. E vou falar do que sei, apesar de saber que nem sei. Apesar da dor que causo no outro por não saber realizar o que sei. E causo a dor no outro pra me proteger da dor em mim. Isso é egoísmo, falta de responsabilidade e intolerável. Mas é o amor o mistério que nos permite continuar, apesar de tanta dor. E quando deixar de acreditar no amor, deixarei também de tentar vivê-lo. Aí será o fim.