15/11/2007

Deus não está


Deus não está à minha disposição.
Deus não está pronto a me servir.
Deus não está esperando o meu louvor.
Deus não está precisando de minha ajuda.
Deus não está nas coisas.
Deus não está em tudo.
Deus não está.
Deus é.

11/11/2007

Palavras


Palavras são como vento:
Ajunta e espalha.
Palavras ao vento.
Palavras são como mar:
Acalma e destrói.
Palavras encharcadas.
Palavras são como sol:
Aquece e seca.
Palavras secas.
Palavras são como armas:
Encorajam e matam.
Palavras assassinas.
Palavras são ditas
E são sentidas.
Palavras sem sentido.
Uma pala lavra.
Larva.
Palavras são palavras.
São palavras.
Só palavras.
Sem palavras.
Palavras.

06/11/2007

Escrita objetiva


Alguém me perguntou por quê eu escrevo coisas importantes em forma de poesia em vez de escrever textos mais elaborados. A pessoa que me perguntou julgou que as coisas sobre as quais escrevo sejam "importantes". E, sinceramente, isso me deixou satisfeito porque também as considero "importantes". Tento com meus escritos mostrar que situações e atitudes aparentemente banais podem estar estruturadas em nossa personalidade ou em nossas relações sociais, para o bem ou para o mal. Aquilo que aparece como individualidade pode ser uma expressão do social: quando olhamos para os lados e para trás e tentamos situar nossas vidas em meio a outras vidas, descobrimos que somos parecidos, que temos as mesmas expectativas e dificuldades. Ora se temos tanta semelhança, isso parece indicar que nossas ações e pensamentos sejam mesmo socialmente condicionados. Mas apesar das semelhanças que nos aproxima, o cotidiano nos separa mais que nos aproxima. Isso se deve à individualização excessiva da vida: somos bombardeados o tempo todo por ideologias individualizantes de consumo e estilo de vida e vivemos como se estivéssemos sós, como se precisássemos resolver sozinhos nossos problemas, como se nossas crises fossem únicas, tão diferentes das dos outros. Acabamos mesmo nos tornando sós. Mas quando fazemos o exercício de nos comparar com outras pessoas e experiências, podemos concluir que há muito em comum em nossas escolhas e angústias. E que, portanto, deveríamos nos aproximar mais, compartilhar mais, nos ajudar mais. Nossos problemas individuais são também sociais, fruto de formações, socializações e desafios que são comuns a todos nós que vivemos numa mesma sociedade e um mesmo tempo histórico.
Mas voltemos objetivamente à questão que deu origem a essa postagem: por quê escrevo poesia em vez de textos como este? Vou ser direto agora: porque as gerações atuais, que são meu público-alvo, não se dedicam à leitura. São tantos textos disponíveis em todo lugar (e até imagens podem ser lidas como texto) que um texto longo corre o risco de ser mais um texto, e talvez seja mesmo. A geração MTV e internet não quer gastar tempo lendo longos textos, ainda mais de desconhecidos, que ao final possa dar a sensação de que foi tempo perdido. Para tentar alcançar com maior eficiência esta geração, fazendo-a refletir após a leitura de um texto meu, prefiro escrever textos curtos, mesmo que isso implique numa perda de profundidade do texto. Confio na capacidade intelectual dos leitores e aposto na iniciativa deles de aprofundar algumas questões levantadas. Ademais, os textos escritos com objetividade e clareza servem como complementação às discussões conduzidas por mim em sala de aula.
Boas leituras! E não deixe de refletir!
Obs: Este foi um texto longo. Quem sabe quantos não desistiram no meio?!

05/11/2007

Preferir


Pre [antes, anterior];
Ferir [machucar, marcar].
Machucar antes.
Marcar antes?
Como uma questão de múltipla escolha
Cuja resposta é a marca.
Marcar na folha.
Marcar uma resposta
Ou outra.
Machucar o papel
E deixar a marca na opção escolhida.
Um X,
Um círculo
Ou uma marquinha qualquer.
Uma marquinha.
Uma marca na folha.
O quanto antes terminar de marcar,
Melhor.
Antes.
Marcar a resposta
Antes de continuar.
Uma a uma.
Marcar a resposta,
Escolher.
Pode ser certa
Ou errada.
Marcar a resposta,
Preferir.
Preferir é escolher.
Mas o que leva a preferir?
Prefiro não dizer.
Quero fazê-lo pensar.
Pense nos fatores
Que levaram você a continuar.
Continue pensando.
De onde vem suas preferências?
De onde vem suas escolhas?
São suas?
O que você prefere?
Preciso ir.
Prefiro questionar.
E você.
E você?

06/10/2007

Tem gente que não é gente



Sofri na carcaça,
Aprendi na raça:
Pensava que todo mundo era igual,
Que todo brasileiro era brasileiro.
Mas tem gente que não é da gente,
Que se sente diferente,
Que não nos trata como gente.
Essa gente está aqui.
Ou pode estar aí.
Mas onde quer que estiver,
Não está nem aí.
É gente de raça,
Gente sem graça,
Gente sem praça
E que se destaca.
Gente como a gente?
Gente que não é gente.
Gente?!

05/10/2007

Sonhos


Os sonhos nos levam longe.
Os sonhos realizados
E os sonhos frustrados.
Todos os sonhos nos levam longe.
Longe de nós mesmos,
Longe dos outros,
Longe do desejado
(para além ou aquém)
Longe oniricamente
Ou geograficamente.
Às vezes é difícil conciliar a projeção da vida
Com a execução do projeto de vida.
A vida é um sonho.
A vida não é sonho.
Sonhar e viver
São dois lados de uma mesma moeda.
Impossível sonhar sem viver.
Impossível viver sem sohar.
O sonho é tão real que nos dá vida.
O sonho é vivo.
A vida é tão sonhada quanto vivida.
A vida é sonho.
E ai de nós se não sonharmos,
Se não vivermos.
Vivo sonhando.
Sonho com um dia,
Com um momento
Ou com um lugar.
E sei que um dia o sonho se realiza.
E sei que outro dia, não.
E sigo a vida sonhando.
E sonho enquanto vivo.
E vou sendo levado a muitos lugares.
Os sonhos nos levam longe.
Os sonhos nos levam pra longe.
Os sonhos realizados
E os sonhos frustrados.

07/09/2007

Temporal




Veio vindo por detrás
Com uivos de destruição.
Escurecendo e alvoroçando.
Redemoinho de papéis e lixos.
Ventania que anuncia
O fim do calor.
De repente
Vem vindo,
Vem vindo,
Chegou.
Cobre as nossas vidas
Em trevas,
Em plena tarde.
Em pleno dia.
Molha nossas cabeças,
Corpos,
Casas,
Carros.
Derruba o que estava em pé
E parecia firme.
Tudo se mostra frágil
Ante o poder da tempestade
Que cai sobre todos.
E chove um temporal.

06/09/2007

Não compreendo tudo







Não compreendo muitas coisas na vida: são coisas incompreensíveis mesmo ou eu que não consigo dar sentido a essas coisas?!
Sei que nem tudo é pra ser compreendido. Do contrário, não haveria tempo pra viver.
Desencana!

05/09/2007

Refletir





Refletir é uma atitude
De observação e questionamento.
Não é só contemplação.
É também flexão.
Re-flexão.
Refletir é sempre auto-reflexão:
É como olhar-se no espelho antes de sair
E considerar as belezas e feiuras,
Os acertos e erros.
E mais:
Não só olhar para si próprio no espelho,
Mas também para o seu entorno.
Pode haver roupas espalhadas,
Utensílios empoeirados,
Móveis,
Pessoas.
Há sempre pessoas.
Você não precisa olhar para dentro delas
(cada um se auto-examine),
Mas para as relações e experiências mantidas por elas.
O que essas relações e experiências alheias
Podem me ensinar?
Como podem me ensinar?
Refletir é um verbo,
É uma atitude de observação
E crítica
(auto-crítica).
Refletir é uma prática.

Vamos tentar?

25/07/2007

Foto na Parede



Foto na parede indica saudade. Saudade de alguém que já se foi, e que pode até não voltar mais, ou de um momento que se quer tornar inesquecível. Seja como for, pendurar uma foto na parede é uma atitude de reverência, de gratidão e/ou contemplação. Os judeus vêem isso como idolatria, adoração de uma imagem. Prefiro entender como reconhecimento. Reconhecimento de algum momento importante vivido ou de alguém especial. Mas pode haver reconhecimento, gratidão, sem foto pendurada na parede. Sem foto. E sem parede. Que as paredes da alma, da memória, pendurem as lembranças e os lembrados. Se somos tidos como ingratos porque não reverenciamos os mais velhos ou nossos "heróis", que sejamos gratos mesmo sem estardalhaços. Que a memória funcione sempre e que lembremos com emoção as pessoas que marcaram, de perto ou de longe, nossa existência. Chega de ingratidão! Vamos verter lágrimas, estender tapetes, bater palmas, abraçar, demonstrar carinho das maneiras mais diferentes. Porque alguém sempre merece esse reconhecimento, porque alguém sempre espera esse reconhecimento. Porque amanhã precisaremos também ser reconhecidos. É a vida, que é razão, mas também emoção.
**************************
25/07, hoje é dia lembranças!

24/07/2007

Novo Amanhecer



Ainda que problemas existam,
Ainda que o hoje seja sombrio
E o agora duvidoso,
Ainda que as normas falhem,
Ainda que...

Existe você, professor!
Que luta pra criar.
Que cria pra lutar.
Que ama ensinar.
E ensina a amar.

Existe você, professor!
Que ao sabor do deve-não-deve,
Ao sabor do pode-não-pode,
Dá sempre o melhor de si:
Abre caminhos,
Passa sozinho.
E descobre
Que ainda há muito por fazer!

Ah, professor,
Há muito que ensinar,
Há muito que aprender,
Há muito a transformar,
Enquanto se espera com fé
Um novo amanhecer!
Nele será indispensável,
Você!
Juntos vamos caminhar,
Vamos lutar
E transformar.
Juntos vamos buscar,
Cada dia,
Esse novo amanhecer!

Esmeria Pereira Reid dos Santos, 1988.
......................................................................
Conforme havia prometido, publico hoje a poesia que está emoldurada e pendurada no hall de entrada da Escola de Educação Infantil Profª Esmeria Pereira Reid dos Santos, inaugurada ontem, em Macaé/RJ. Acima, uma foto da escolinha.

23/07/2007

Escola


Ontem foi inaugurada a Escola Municipal de Educação Infantil Profª Esmeria Pereira Reid dos Santos. Bela homenagem da prefeitura de Macaé à minha mãe, que depois de amanhã faria 57 anos e que faleceu há 11 meses. Faço desta postagem minha gratidão aos empreendedores dessa homenagem. Particularmente, minha gratidão à Secretária de Educação de Macaé, Milmar Madureira Pinheiro.
Ao lado, foto de duas aluninhas da escola uniformizadas.
Amanhã vou publicar aqui a poesia de minha mãe que está pregada no hall de entrada da escola.

11/07/2007

Tarefas, reflexões e humildade


Tenho andado bastante atarefado na execução de minha tese de doutorado, razão pela qual este blog anda meio desatualizado. São muitas leituras, anotações, rasuras e muitos, mas muitos pensamentos que vem e vão na tentativa de fechar alguns aspectos que ainda estão em fase de amadurecimento. Confesso que é difícil realizar as tarefas do dia-a-dia sem perder de vista o contexto social em que vivemos e a capacidade de reflexão, de crítica e auto-crítica. Mas essa dificuldade pode ser vencida com um pouco de disciplina própria. A reflexão tem de se tornar também uma tarefa cotidiana que precisa ser realizada. Basta eleger a reflexão sobre o mundo da vida e sobre nosso papel neste mundo da vida como prioridades. Reflexão sobre as crises pelas quais passamos como sociedade e como indivíduos. E crise não é sinônimo de algo ruim, pode indicar um processo de mudança, por exemplo. Toda mudança, por menor que seja, gera alguma crise.
A reflexão, que significa também auto-reflexão, deve ser uma de nossas prioridades de todo o dia. Diariamente passamos por experiências que nos dão a possibilidade do exercício da reflexão. Acontece que muitas vezes não aproveitamos essas oportunidades.
Para quem não sabe, o exercício da reflexão é o exercício da compreensão. E o exercício da compreensão só poderá ser feito com o levantamento de questões que possam nos ajudar a entender ou interpretar certas situações que passamos. Não se deve querer com a reflexão encontrar respostas, mas apontar possibilidades de compreensão de nossas crises sociais e individuais. Algumas de nossas crises individuais são sociais. E carregamos sozinhos o peso de uma crise que achamos que é só nossa porque não realizamos o exercício cotidiano de olhar para fora, de olhar para os lados, e de perceber que passamos por crises tão comuns na sociedade em que vivemos. Outras vezes diminuimos nossa responsabilidade pessoal em relação a uma determinada crise porque a entendemos como social. Mas nem sempre somos iguais, não é? Às vezes nos metemos em crises pessoais mesmo, damos vida aos nossos maiores defeitos.
A reflexão é essa tarefa de olhar para dentro e para fora ao mesmo tempo, de sondar nossas próprias intenções e compreender as atitudes alheias. As tarefas cotidianas tendem a nos tirar da prática da reflexão sim. Mas às vezes apenas justificamos a nossa alienação, a nossa não tomada de consciência sobre o mundo e sobre nosso papel no mundo, com o excesso de atividades. Pode haver reflexão mesmo em meio às atividades diárias. Aliás, a reflexão deve ser também uma atividade diária. Mas não há, nem pode haver, reflexão sem humildade. Humildade para reconhecer que tenho problemas. Humildade para entender que sou parte de uma sociedade, que o mundo não gira em torno de mim.

29/06/2007

Aniversário




Aniversário é todo dia.
Mas tem dia especial.
Um dia em que todos juntos
Celebramos o que é vital:
A vida que se foi,
A vida que se vai.
Aniversário,
É momento de alegria,
De esperança
E reflexão.
Todos os dias são vivos
Na memória de quem relembra
O passado e projeta o futuro
Num dia especial:
Aniversário.

Aniversário
É tempo de compartilhhar,
De estar com,
De dividir
E celebrar.
Viva!
Vivamos!
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Mesmo que distantes, podemos curtir juntos esse momento alegre. Conto com seu carinho, sempre.
...
Um forte abraço pra você.

28/06/2007

Criança dá trabalho


Arnaldo Antunes, ex-Titãs, fez uma música, cantada pelo grupo Palavra Cantada, chamada "Criança não trabalha, criança dá trabalho". A ênfase da música é na denúnica e combate do trabalho infantil. No clipe da música as crianças que trabalham vendendo nos sinais, como engraxates e em tantos outros lugares vão abandonando suas atividades e acompanhando um grupo de crianças que caminham e cantam o refrão da música, "Criança não trabalha, criança dá trabalho". O trabalho infantil é mesmo uma coisa deprimente e vergonhosa. E a sociedade brasileira nem é uma das piores nesse quesito. Algumas sociedades asiáticas são mais problemáticas na exploração da mão-de-obra infantil. Mas não é sobre o trabalho infantil que quero falar. Quero me prender à segunda parte do refrão: "criança dá trabalho".
Recentemente foi noticiado a agressão que uma empregada doméstica sofreu de quatro jovens de classe média do Rio de Janeiro enquanto esperava um ônibus. É claro que em grupo faz-se coisas que não se faria individualmente, há uma menor inibição do indivíduo quando ele está em grupo. Mas isso tem limite. E o limite talvez não tenha sido dado no momento adequado por quem deveria (a família). E esse limite dos pais não vem porque eles se sentem culpados de não poder dar atenção aos filhos, já que trabalham cada vez mais e tem menos tempo a dedicar à criação dos filhos. Mas, como diz a música, criança dá trabalho. E dá mesmo.
Vivemos num tempo em que as crianças, que amanhã serão adolescentes e jovens, fazem o que querem e o menor sinal de repressão dos pais é visto como violência ou como geradora de traumas físicos e emocionais. O resultado é que constitue-se uma tirania da infância em casa e, como não poderia deixar de ser, nos lugares públicos. É a geração ilimitada, que faz o que quer, quando quer e como quer. O resultado está aí, na agressão sofrida pela doméstica, no massacre de Columbine, nas ameaças sofridas pelos professores por parte de seus alunos...

27/06/2007

Ralo


Pra onde vai a água suja que escoa pelo ralo? Ninguém se pergunta algo assim. Também se questionássemos até isso, provavelmente não viveríamos. É sobre algo como um ralo, que leva a água suja para não se sabe onde, que escrevi na postagem de ontem. O melhor, para continuarmos vivendo bem com nossas consciências, é não saber onde deságua a boca do ralo. Mas sempre tem um rato que desce pelo ralo e vai até o desaguadouro. E sempre tem um rato que sobe pela tampa do bueiro e nos ameaça com suas doenças infecto-contagiosas. É mais ou menos assim a fossa da desigualdade no Brasil. Quem está na superfície produz lama, mas não quer saber onde ela vai cair. Quem está dentro do esgoto quer saber de onde vem tanta podridão. "Provavelmente, o lugar de produção da sujeira deve ser mais rico (em todos os sentidos) que aqui embaixo." Mas o rato que tenta sair do esgoto para se alimentar da sujeira em sua origem, não sabe que quem produz a sujeira não a suporta, não a quer por perto. Quem produz a sujeiro lava suas mãos para tirar qualquer vestígio que teime em se prender à vida. E deseja que a sujeira retirada das mãos vá para bem longe, caia nas correntes de água que vão até o mais profundo da terra, onde não se imagina. Mas o sujeira cai ao seu lado sem ele perceber. E ele vive nojentamente, sem perceber.
A desigualdade social abre um ralo na nossa vida cotidiana por onde escoa piadas preconceituosas, brincadeiras humilhantes, abraços hipócritas, ajudas inescrupulosas, desvios de verbas públicas, tráfico de influências, clientelismos, homofobias de todo tipo, terrorismo, intolerâncias... E todo esse material nojento vai lavando a nossa alma e levando nosso orgulho de ser diferente, de ser melhor. Só não leva o medo dos ratos saírem dos esgotos e estragarem o nosso banquete. A pobreza se torna uma ameaça numa sociedade onde a riqueza é mal distribuída. A sujeira que sai das mãos dos ricos cai sobre os pobres. Parece maniqueísmo, mas não é. Não no Brasil. O crime de colarinho branco, as corrupções políticas, crimes típicos de quem tem acesso ao poder, se reproduz com alterações entre os que não tem nenhum poder. Quem não tem poder pega em armas. Sem percebe que seu crime é punido com mais rigor que o crime cometido por aqueles que têm as mãos sujas. O criminoso que está dentro do bueiro está todo sujo de lama. O criminoso que está nas assembléias políticas tem só as mãos sujas. Não tem mais, ele acabou de lavar. A sujeira de suas mãos agora limpas faz mergulhar os ratos do esgoto em merda. É o que sobra aos que estão no fundo. E esses que estão no fundo, vai continuar no fundo. Porque quando subirem à superfície e incomodarem os ratos limpos, serão rechaçados com força, serão presos ou empurrados de volta à lama.
O segredo da boa convivência até aqui tem sido fingir que os ratos de cima não existem. Eles fazem o mesmo com os ratos de baixo. Isso vai mantendo a ordem e a harmonia entre todos.
Mas essa harmonia não existe, nunca existiu. Sem dúvida, esse ralo precisa ser tapado. Sob pena de continuarmos os mesmos sempre: sociedade desigual.

26/06/2007

Matamos Felinho!!


Felinho nasceu igual a todos:
Foi bebê, criança e adolescente.
Mas nunca foi gente.
Nasceu numa família batalhadora.
Que nunca precisou de metralhadora.
Tinha muitos irmãos.
Tinha poucos recursos.
Quando menino gostava de correr
E de jogar bola.
Estava no sangue:
Seu avô foi jogador amador e
Seu irmão foi jogador profissional.
Era magrelo,
Esguio,
Veloz.
Mas não conseguiu fugir da maldade
E da falta de oportunidade.
Na infância foi abusado.
E abusaram dele.
Foram os meninos maiores de sua própria rua.
Virou piada,
Entrou na vida.
Percebeu ainda criança
Que não era igual,
Que nunca fora igual,
E, talvez, que nunca seria igual.
Seu problema é que era negro
E pobre.
Percebeu logo que sua cor
Era fator principal
De distinção social.
Tentou resistir às evidências,
E levou sua luta às últimas consequências.
Se envolveu nos espaços destinados aos negros na Esfera Social:
Foi aprendiz de pedreiro
E amou o carnaval.
Frequentou escola,
Abandonou a escola...
E começou a dar pequenos golpes.
Foi dando golpes,
Como se descontasse os golpes que levava.
Um dia fez uma tatoo.
Aí completou:
Preto, Gay e tatuado.
Tá roubado!
Foi preso a primeira vez:
E voltou a ser de todos.
Foi solto:
Não era de ninguém.
Se embrenhou no mato.
E a polícia atrás.
Passaram-se dois dias
E a polícia atrás.
E lá, longe da família,
E do olhar social,
No meio do matagal,
Encontrara o desfecho de sua vida
Nada triunfal:
Onze tiros.
Seis nas costas,
Três na cabeça,
Dois no braço
E seis no mato.
Viveu pouco,
Talvez até a primeira infância.
E começou a morrer quando começou a percorrer
O destino que já lhe estava traçado.
........................................
Matamos Felinho, Charutinho e tantos outros. Matamos e não percebemos como. Não entendemos como reproduzimos desigualdades sociais e raciais. E que peso essa desigualdade reproduzida por nós tem na vida de suas maiores vítimas. E não é pra entender mesmo. O não-entendimento desse mecanismo perverso que nos faz excluir o outro, por qualquer motivo que seja, é parte de uma ideologia que nos faz acreditar que as coisas são assim mesmo, que é natural. Que o excluído é derrotado, perdedor. Entender esse mecanismo poderia nos fazer romper com essa lógica de reprodução de desigualdades. Mas quem disse que queremos diminuir as desigualdades sociais? Por isso, é melhor que continue assim, sem sabermos como matamos, como excluímos, como reforçamos desigualdades... Triste fim de Felinho. Triste fim nosso. Triste fim.
Até!

25/06/2007

Livros e leitores




Livro novo
É morto.
Livro lido
É vivo.


Livro que já foi lido tem alma,
Tem marcas,
Manchas,
Traças,
Traços
Dobras,
Sombras.
Sombras de um tempo que não volta mais.
De alguém que já se foi.
De emoções sentidas diante do papel.


Livros usados são:
Lidos,
Não-lidos,
Rabiscados,
Carregados,
Molhados,
Jogados,
Empilhados...
E todas as ações marcam o livro.
E todas as ações marcam a pessoa.
E as marcas do livro podem marcar outras pessoas.
E as marcas da pessoa podem marcar outros livros
E outras pessoas.
Livros usados trazem marcas profundas
E produzem marcas profundas.


O leitor usa o livro.
Ele dá sentido aos usos do livro.
Pode ser para enfeitar,
Pode ser para carregar,
Para deitar a cabeça,
Para apoiar a porta,
Para bater,
Para sentar...
Ou para ler.


Livro lido,
Eu digo,
É vivo.
...................................................................................................
Proponho uma campanha pelo aumento do consumo de livros usados. Há basicamente duas vantagens nisso: o cuidado com a natureza (lembrem-se que o papel vem das árvores!) e o aproveitamento da "alma" do livro usado por outrem.

20/06/2007

Desigualdade e cotidiano


Nossa desigualdade social parece não ter solução. Isso porque não é só uma desigualdade econômica, mas uma desigualdade que tomou as vias culturais e se estabelece e se reforça cultural e cotidianamente. Reafirmamos a desigualdade cotidianamente na igreja, na escola, no trânsito, no trabalho, nas relações de vizinhança... A base da manutenção cotidiana dessa nossa desigualdade social é a crença numa desigualdade ontológica entre "nós" (melhores do que eles) e "eles" (piores do que nós). Piores do que nós porque não são da mesma classe social, porque não moram no mesmo bairro, porque não vestem as mesmas roupas, porque não tem a mesma cor de pele, porque não frequentam os mesmos lugares... Motivos não faltam para justificar a desigualdade. Essa desigualdade ontológica que acreditamos existir entre "nós" e "eles" cria fossos intransponíveis. Assim, não basta que eles morem no mesmo bairro que nós, precisam consumir; não basta que consumam, tem de saber onde consumir; não basta saber onde consumir, é preciso ter bom gosto para consumir ou para combinar as peças, e por aí vai.
A busca por diferenciação, que é comum a qualquer sociedade, no nosso caso acirra ainda mais a desigualdade social. Como nós ainda não resolvemos o problema da igualdade formal, porque de fato nem todos são iguais perante a lei, a luta por diferenciação reproduz e amplia a desigualdade. Resolver este tipo de desigualdade é mais difícil que resolver a desigualdade econômica. A desigualdade econômica se resolve com crescimento econômico e redistribuição de renda (dar mais a quem tem menos). Mas a desigualdade que se instaura culturalmente nas nossas práticas sociais cotidianas precisa de uma mudança de mentalidade para ser solucionada. Quem não assistiu o filme "Quanto vale ou é por quilo?", com Lázaro Ramos, precisa assistir e se chocar com a constatação de que somos o país com a maior quantidade de Ongs empenhadas na solução de problemas sociais, que movimentam milhões de dólares ao ano, e não conseguimos resolver nossas mazelas sociais. E estamos longe de resolver porque essa desigualdade gera recursos, para alguns. A exploração da miséria alheia e a reprodução inconsciente, nas práticas sociais cotidianas, das estruturas de desigualdade, movimentam e reforçam o lugar social de cada um. Nós aqui e eles, lá. E quando essa distância é quebrada... Essa é outra história.

17/05/2007

Recompensa




















Recompensa não se busca,
Mas ela vem.
Inesperadamente vem.
Quando se trabalha com afinco,
Com dedicação.
Quando se sabe o que se faz.
E se faz.
Mesmo que pareça estar dando errado.
Mesmo que dê errado.
Quando se sabe o que se faz,
E se faz,
A recompensa vem.
Pode demorar,
Mas virá.
E não necessariamente em forma de dinheiro,
Como no velho oeste.
Pode ser em agradecimento,
Ou em transformações ocorridas.
Pode ser expressa,
Ou pode ser tácita.
A recompensa é o reconhecimento de que se fez o certo.
Que valeu a pena o trabalho árduo,
As crises vividas,
As angústias
E dúvidas enfrentadas.
A recompensa será um "valeu!"
Uma confidência.
Ou mesmo a percepção de uma outra vida.
Uma nova vida.
Talvez mudada no confronto,
No embate,
Na vida.
A sala de aula é um lugar e tanto para essas crises.
E o professor sempre espera uma recompensa.
Que vem.
Pode até demorar,
Mas vem.
Quando se sabe o que se faz,
E se faz.
................................................................
Hoje obtive uma recompensa.

16/05/2007

Considerações


Constantes considerações,
Coincidentes,
Continuam nos acostumando
A Continuar
O mesmo.

O mesmo
Meio
De manutenção
Mecânica
Da mesmice.

O mesmo.
Assim mesmo:
O mesmo,
O mesmo,
O mesmo.
Chega!
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Novas considerações
Questionam
O Status Quo.
E desafiam o momento.
E mudam a história...

Escrito em julho de 2005 - "estava perdido e foi achado".

15/05/2007

Memórias


Dizem que o brasileiro não tem memória, que se esquece fácil até de coisas que não se deve esquecer. Dizem também que o brasileiro é pacato e, no extremo, até omisso, descansado demais. Que não participa das lutas sociais, que vê a história passar sem perceber que ele também é parte da história. Se pensarmos num brasileiro despolitizado e inconsciente dos jogos de força que estão aí, por aí, em todo lugar, amarrando e chicoteando ao mesmo tempo, talvez possamos dar razão à idéia de um brasileiro desmemoriado. Afinal, se ele não participou da história, se ficou vendo a banda passar, não poderá mesmo ter memórias. Ele pode se reconhecer um dia como quem dormira enquanto a história se fazia: "onde eu estava que não vi isso, que não vivi isso?" Só tem memória quem vive. Só se rememora quando se esteve na lida. Só se comemora quando encontramos outro que tenha passado conosco uma determinada experiência. Co-memorar, trazer à memória experiência vividas com alguém. Comemorar é também alegrar-se. E alegrar-se com a possibilidade de compartilhar as memórias construídas com o(s) outro(s). Só em conjunto se pode comemorar, só com pessoas que tenham sido nossos companheiros de jornada, de lutas, de experiências de vida. Quem vê a banda passar não pode ter memória e também não pode comemorar.

Mas confunde-se memória com saudosismo. Rememorar não é saudosismo. Rememorar não é querer voltar no tempo e reviver uma história, não é ter uma saudade avassaladora de um tempo que passou e que não volta mais. E ainda bem quem não volta mais. A história não é cíclica como se pensava antes. A história é processual, nela há avanços e retrocessos, mas nunca se pode voltar a um mesmo ponto, porque cada momento é único. E já passou. É preciso saber viver, como diria o Rei. E mais, é preciso viver. Quem não vive não tem memórias. Não pode compartilhá-las, comemorar. Não tem memória não só quem não vive, quem vê a banda passar, mas também quem não entende que a história é o próprio viver, quem deseja voltar no tempo para reviver algo que já fora vivido. Rememorar e comemorar não é desejar retroagir no tempo, mas contentar-se com as experiências vividas ou arrepender-se das escolhas feitas. Ou mesmo arrepender-se da inércia, da ausência de escolhas, que também é uma escolha. Assim como arrependimento e remorso são coisas distintas. Memória e saudosismo também não é a mesma coisa. O Saudosismo é pegajoso, é aprisionador, é a expressão maior da alienação, de quem não está consciente de que a vida é história, que tudo passa. A memória é libertária, é celebração da vida, é expressão de gratidão pelas experiências e escolhas tomadas. Rememorar é reconhecer erros e acertos que foram realizados por pessoas viventes, que sabiam que estavam vivendo um tempo histórico, que não volta atrás e que, por isso, requer consciência, responsabilidade.

Um viva à(s) mémoria(s)! Abaixo o saudosismo!

14/05/2007

Cata-Cata

Cata-Cata.
Cata lata;
Cata lixo;
Cata papel;
Cata plástico;
Cata tudo;
Cata nada.

Cata-Cata
Cata,
Cata,
Cata.

Catalisa a vida.
Cá pra nós:
Cata máta.
Cai a vida,
Cai por terra,
Cara na lama.
Cama de gato.

Cata-Cata.
Cata,
Cata,
Cata.

Catador
Cata.
Cata e é
Catado.
Captura e é
Capturado.
Catado.
Cativado.

Cata-cata.
Cata,
Cata,
Catado.
Caído.
Castrado.

13/05/2007

Na cama


Pensei em olhar pela janela para ver as crianças passando pra aula logo de manhã. Mas não tive forças, nem coragem, e fiquei onde estava, enrolado nas cobertas. O máximo que fiz foi rolar um pouco para o lado, na busca de uma posição mais confortável para passar algumas horas a mais na cama. Lá fora estava um friozinho convidativo à preguiça dentro do quarto. Já estava acordado, semi-acordado, mas os olhos ainda permaneciam cerrados. E a mente pensava, sem limites, em coisas sem sentido. A preguiça prevalecia, embora a necessidade de levantar fosse urgente.
A frestinha aberta da janela lançava as cortinas no meio do quarto, como um vestido esvoaçante ao vento, e sussurrava um barulhinho que tentava me expulsar da cama. A mente já não pensava mais nada, só se irritava com aquele barulhinho que agora era perturbador. Cansado, resolvi levantar, fechar de vez a janela para eliminar o zumbido, tomar um calmante e voltar a dormir. Quando acordei já era tarde, os compromissos já haviam se perdido. Agora era só pensar nas desculpas aos que me esperavam. Que não me esperem mais para nada em climas frios e enquanto eu estiver numa cama aconchegante, apagado. Que haja mais dias frios como esse! Uahhhhh! Vou dormir.

12/05/2007

Aprisionamento


É terrível estar aprisionado:
O frio,
A solidão,
O medo,
A morte.
Jaulas que separam,
Que unem,
Que afetam,
E afastam.
Do lado de dentro,
Se torna cada dia mais fora,
Anti-social.
Do lado de fora,
Espera-se que fique dentro.
Por muito tempo.
Corredores,
Rostos,
Cheiros,
Regras.
Celas cheias;
Vidas humanas.
Vidas cheias;
Selas humanas.
Canga pesada.
Passado presente,
Sempre.
Poder,
Intimidação,
Dinheiro e
Exploração.
Tudo igual,
Aqui e lá:
Miséria
E Luxo.
Sociedade desigual.
Não é preciso passar pela experiência pra saber!

30/04/2007

Nomes


Os nomes são nomes.
São mais que nomes:
São identidades,
São vidas,
São pessoas,
De carne e osso,
Com sentimentos,
Interesses e
Vidas próprias,
Mesmo que dominadas.
Márcio, Fábio, Flávio,
Carlos, Marcos, Sávio,
Juliana, Luciana, Ana,
Sabrina, Valéria, Mariana...
São nomes,
São vidas.
Mesmo na multidão.
..........................................................................
O mês acaba com uma sensação de incompletude.

09/04/2007

O tempo não cura!


Insisto em dizer que precisamos tratar nossas mazelas, sociais ou individuais, como mazelas. Não dá é pra esparar que as coisas se resolvam por si mesmas. Problemas para serem resolvidos e não voltarem a ocorrer pelos mesmos motivos que os deram causa, precisam ser reconhecidos (diagnosticados), analisados (discutidos) e enfrentados de peito aberto (tratados).
Existem algumas expressões que estão na boca dos brasileiros e que revelam um de nossos problemas como brasileiros: nossa dificuldade de enfrentar de frente os problemas da vida. As expressões a que me refiro são: "O que não tem solução, resolvido está"; "O tempo cura tudo!"; "Eu dou um boi para não entrar numa briga. Mas, uma boiada para não sair".
Alguns autores vão chamar a atenção para a "inércia" da sociedade brasileira diante dos fatos da vida, da história. Outros autores vão nos classificar de conformistas, alienados, expectadores, acomodados e até bestializados. Independente dos porquês que explicariam a nossa condição de inércia, como o medo da repressão, por exemplo, precisamos estar conscientes da nossa dificuldade de entrarmos na luta. Somos mais chegados a "ver a banda passar" do que a fazer a hora e não esperar acontecer. Por isso, precisamos criar meios para estimular os indivíduos à participação social e, fundamentalmente, a não esperar as coisas acontecerem, porque, como o título desta postagem diz, o tempo não cura nada.
Achar que o tempo cicatriza tudo é varrer os problemas para debaixo do tapete. Eles continuarão ali, só esperando alguém descobrí-los. Não dá pra continuar a vida sem considerar as perdas de um problema não resolvido, ou mal resolvido. Se é um problema pessoal ele precisa ser colocado em pratos limpos e discutido abertamente. Se é um problema social, precisamos conhece-lo e resistirmos à tentação de reproduzí-lo, de vivermos "como nossos pais", como cantou Elis Regina.
Deve ser enfrentado por nós as heranças do regime escravocrata, os traumas das ditaduras e o mal-estar nas relações familiares, por exemplo. O tempo não é nosso aliado nesse enfrentamento. Pelo contrário, é nosso algoz: quanto mais o tempo passa mais os problemas vão se enraizando na alma e vai ficando mais difícil se libertar deles.

08/04/2007

Militares nas ruas



Antes que me acusem de reacionário, conservador e outros bichos mais, quero dizer que o título desta postagem não tem nada a ver com um chamado pela volta dos militares. Pelo contrário, o leitor que for perseverante e continuar na leitura até o final verá que meu propósito é outro, banir os militares, e suas heranças (ver postagem anterior), de uma vez por todas da sociedade brasileira.
Penso que só podemos tratar e resolver nossos problemas sociais se admitirmos que eles existem. O problema do autoritarismo na sociedade brasileira não é um problema dos governos, mas da sociedade. Portanto, é a sociedade que precisa dar conta desse mal. Não podemos é fingir que ele não existe, que não somos marcados pelo autoritarismo, que de vez em quando somos tentados a usar saídas autoritárias para apaziguar problemas em nossas relações sociais ou somos vítimas desse autoritarismo. Aqueles que ocupam alguma posição de poder, ou que acham que têm algum poder, são seduzidos a reproduzir a lógica de autoritarismo a que estamos historicamente submetidos.
A Alemanha de Hitler produziu algo pela qual veio a se envergonhar depois. E não foi uma vergonha espontânea, mas politicamente provocada. Os alemães são chamados a olhar e rever todo o mal que produziram para com a humanidade. E esse chamamento é também impositivo: é um "olhe bem o que produzimos e envergonhemo-nos disso para não repetirmos o erro".
Se não agirmos assim também em relação às nossas próprias mazelas, não nos conscientizarmos que produzimos também o mal e não nos envergonharmos disso, provavelmente voltaremos a produzi-lo. Não podemos, portanto, mascarar a ditadura militar que tanto mal causou à nossa sociedade. Precisamos expurgar nosso "pecado" confessando-o e abandonando-o. Se não queremos mais as ditaduras militares no poder, precisamos abrir os arquivos da repressão e conhecer os fatos daquele período histórico. Precisamos ser confrontados com a realidade para parar de criar mitos e acreditar neles. A abertura dos arquivos é contrária à famosa ação atribuída a Rui Barbosa em relação à escravidão (queimar os arquivos da escravidão para fingir que ela não aconteceu).
Mas antes da abertura dos arquivos, precisamos parar, já, de reverenciar o criminoso, o grileiro, o dedo-duro, o torturador, o ditador etc. Uma das maneiras pelas quais homenageamos essa gente que não merece honra depois de morta, até porque nunca tiveram em vida, é dando nomes de ruas, praças, escolas, prédios e espaços públicos em geral.
Confesso que me envergonho do período de ditadura militar e quero que a sociedade como um todo seja politicamente levada à mesma atitude de envergonhamento. Chega de nomes de militares tomando lugar nas esquinas, indicando nomes de ruas! Chega de homenagens a pessoas que escolheram viver e reproduzir a cultura autoritária! Não quero ver os militares nas ruas mais. Nem nos nomes das ruas. É preciso começar as mudanças de algum lugar.

07/04/2007

Herança


Vou fazer uma pausa na série que venho produzindo sobre as músicas de protesto para falar de outro tema que tem me intrigado ultimamente. Alguns historiadores e cientistas sociais trabalham com a noção de herança histórica. No Brasil, Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro trabalham, claramente com esta noção, atrelando a realidade brasileira e seus problemas ao passado, principalmente ao modelo português de Estado e de relações sociais e culturais. Segundo estes autores, o Brasil é o que é porque é filho de Portugal, carregando consigo todas as mazelas e virtudes de seu "pai".
Herança é uma instituição jurídica. E está claro juridicamente que uma herança não é de aceite obrigatório por parte do futuro herdeiro. Só herda quem quer. Ninguém é obrigado a herdar nada, podendo recusar a realização da vontade última daquele que deixou testamento. O que pode acontecer é o silêncio pressupor o aceite da herança. "Quem cala consente", não é assim que dizemos?
A questão que se coloca, então, é que se Portugal deixou alguma herança para o Brasil, de certa maneira, aceitamos esta herança, mesmo que pela nossa inércia. E pior, talvez tenhamos gostado, nos lambusando com estas heranças portuguesas. Isso vale para a vida individual também.
Podemos lutar contra as heranças do passado, podendo ficar livres da bola de ferro que carregamos sem saber, herança deixada por nossos pais: sentimentos, temperamentos, traumas, visão de mundo etc. É difícil resistir a essas heranças históricas porque o primeiro passo para isso é conscientizar-se de que elas existem. E normalmente nem sabemos que elas existem e que são "heranças", porque nos são passadas silenciosamente. Só conscientes das heranças (boas ou ruins) que trazemos amarradas no tornozelo é que poderemos realizar alguma transformação pessoal. O que não podemos é reproduzir comportamentos sem entender, nem querer entender, de onde eles vêm.
Bom trabalho!

05/04/2007

Repressão e criação


Os anos de repressão militar foram anos muito criativos para a música brasileira, em particular para a música de protesto. Em parte porque os militares, contraditoriamente, não deram importância aos artistas nos primeiros anos do regime. Só posteriormente, a partir do governo Médici (1969), é que se intesifica a perseguição e censura aos artistas. Aí os músicos aumentam a criação de canções para confrontar o regime militar, de uma maneira velada e inteligente para não correr riscos maiores. É dessa época as maiores criações musicais de protesto, como o discos "Construção" e "Apesar de você", de Chico Buarque, e Tropicália, de Caetano, Gil e cia, entre outros discos e músicas importantes no cenário da música de protesto.

Se os anos de repressão foram anos de muita criatividade musical, isso não quer dizer que não tenhamos tido músicas criativas sem regimes repressivos, nem que todas as músicas produzidas naquele período tenham sido criativas e engajadas politicamente. Muito menos que precisamos ter de volta o autoritarismo para voltarmos a produzir músicas de protesto no Brasil. Alguém me disse dia desses que "a mediocridade musical que vivemos decorre da falta de inimigos políticos, como os militares foram para a classe artística daquele período". Ousei discordar e inverter o argumento: talvez tivéssemos mais inimigos políticos se fossemos politicamente mais engajados. Quer dizer, a ação dos militares foi imprescindível para a criação musical brasileira, mas além disso, a criação musical brasileira foi um calo no sapato dos militares. A música de protesto no Brasil ajudou a demarcar o terreno político da época, com efeitos sobre toda a sociedade e, em partcular, sobre a juventude da época. Meu argumento é que se tivermos mais compositores e músicos engajados politicamente, teremos, em contrapartida, regimes políticos mais furiosos com a atuação dos músicos-políticos. Problemas sociais não faltam para protestarmos, mas onde estão os músicos-políticos? Se vivemos num marasmo musical, em termos de músicas de protesto, isso decorre mais de nossa apatia política. Até a próxima!

01/04/2007

Música de protesto nos anos 90


Com o fim do socialismo real, simbolizado na queda do muro de Berlim, em 1989, ruiram-se também as utopias de um mundo melhor a partir da participação política. Na música de protesto, o fim das utopias políticas também aparecerem. Na década de 1990, a música de protesto não deixou de existir, mas as críticas já não eram a sistemas políticos e problemas sociais de grande porte, mas a problemas pessoais enfrentados cotidianamente. A juventude dos anos 90 não deixara de protestar, mas perdera a dimensão histórica do protesto em vista de protestos contra pontos específicos do dia-dia das cidades grandes, como a moda, o corte de cabelo, a chatice do vizinho, o barulho dos automóveis, a violência urbana etc. A crítica política foi jogada para dentro do indivíduo que precisava agora resolver suas mazelas cotidianas antes de querer mudar o mundo. Não se estava mais interessado em transformar a realidade social do mundo, mas em criticar a realidade social do indíviduo urbano. Temas caros ao romantismo volta nos anos 90 como uma tentativa de obtenção de algo que fora perdido: a tranquilidade do interior, o verde da paisagem e a amizade, por exemplo.
Passamos a viver numa sociedade fragmentada e cada vez mais individualizada. A solidão das pessoas é expressa nas músicas de protesto dos anos 90 como algo angustiante. A angústia cantada era a angústia vivida também pelos músicos, pessoas sujeitas à mesma solidão que qualquer um. Tanto que alguns músicos tentaram se sucidar e que outros conseguiram cometer suicídio, como Kurt Cobain (Nirvana) e Michael Hutchence (INXS). Tivemos também nos anos 90 o aparecimento e o desaparecimento de inúmeras bandas de rock e de alguns movimentos musicais, como o grunge.
Muito dessa influência dos anos 90 ainda estão presentes na música de protesto dos dias de hoje. Principalmente a redução do horizonte político para as coisas do cotidiano. Mas hoje já há uma tentativa de alargar novamente a visão política e o alcance da música de protesto, principalmente por conta da chamada Globalização. Mas este é outro assunto.

26/03/2007

A música nos Direitos Civis americanos


A música é utilizada como meio para protestar há muito tempo. Várias músicas marcaram gerações distintas, com refrões chamando a posicionamentos políticos ou denunciando problemas sociais. Ou com estrofes inteiras de apelo à mobilização social contra determinados fenômenos sociais ou governos. Resolvemos destacar alguns dos grandes "hinos" da música de protesto que marcaram a campanha dos Direitos Civis nos Estados Unidos.
Bob Dylan lançou, em 1964, o disco "The Times They Are a-Changin'" e a canção título foi tomada como manifestação de esperança nas transformações na sociedade racista americana. Todos cantavam "os tempos estão mudando" do refrãozinho pegajoso da música. Outra música de Dylan que pode ser considerada um hino político é "Mr. Tambourine Man", ao pé da letra, algo como "senhor pandeiro" ou "homem-pandeiro", numa referência à reação de violência do governo americano contra os ativistas políticos que lutavam pelo fim do racismo no país. A música saiu no álbum "Bringing it all back home", de 1965, e logo tomou as ruas americanas.
Outra música importante no movimento dos Direitos Civis americanos foi "If I Had a Hammer", de autoria de Pete Seeger, mas que fez sucesso na voz do trio Peter, Paul e Mary, que cantou a canção para milhares de pessoas na famosa "Marcha sobre Washington por trabalho e liberdade" (foto), em que Martin Luther King fez o seu famoso discurso "Eu tenho um sonho". A música dizia que se "eu tivesse um martelo" bateria o martelo da justiça e os sinos da liberdade. Virou uma canção de protesto e tanto naquele momento histórico.
Se Pete Seeger, com sua composição lançou o trio Peter, Paul e Mary ao estrelato, "If I had a hammer" não foi a única música de Seeger que se tornou hino do movimento pelos Direitos Civis americanos. "We Shall Overcome" foi considerado o hino propriamente dito do movimento. Seeger mudou a letra de uma antiga melodia religiosa americana do início do século XX criando frases como "nós superaremos", "nós andaremos de mãos dadas", "nós viveremos em paz", nós seremos todos livres", "nós não temeremos" e "nós superaremos, um dia". Nem precisa dizer que este apelo musical caiu no gosto de uma sociedade fraturada pelo racismo e que ansiava por mudanças imediatas.
José Murilo de Carvalho vai dizer que os Direitos Civis no Brasil ainda não se consolidaram, que só agora estamos começando a discutir sobre isso. Quem sabe as músicas de protesto não poderiam dar um empurrãozinho neste processo? Exemplo para isso temos.

23/03/2007

Joe Hill na luta com os trabalhadores


Joe Hill foi um dos pioneiros da música de protesto no mundo. Joe Hill nasceu Joel Haaglund, em 1879, na Suécia. Migrou para os Estados Unidos em 1902, depois que seus pais morreram. Com seus pais, que eram muito religiosos, aprendeu a tocar alguns instrumentos, como acordeão, piano, violino e violão. Trabalhou em Nova Iorque e depois foi para Chicago. Mudou seu nome para Joe Hill depois que foi demitido e colocado na lista negra das empresas da região, taxado de "agitador", porque ele organizava os trabalhadores para lutar por seus direitos. Em 1910 uniu-se a uma instituição que lutava pelos direitos dos trabalhadores da indústria no mundo todo, a IWW (Trabalhadores Industriais do Mundo).
Foi no movimento sindical que ele começou a compor e cantar músicas de protesto contra as condições de trabalho dos operários americanos. O operariado adorava as músicas de Hill, principalmente porque se identificava nas condições de trabalho denunciados por ele. Dentre as músicas que ele compôs e cantou, destacam-se "The Rebel Girl", "The Preacher and the slave" e "Casey Jones - The Union scab". Em "The Rebel girl" ele faz uma homenagem a uma líder do movimento operário, Elisabeth Gurley Flinn, considerando-a uma mulher firme de suas convicções e chamando a atenção para a importância das mulheres para a causa operária. Em "The Preacher and the slave" ele zomba da atitude religiosa de esperar as bençãos dos céus e conclama os trabalhadores a marchar unidos pela conquista da liberdade. Ele vai chamar os trabalhadores de escravos que precisam se libertar. Finalmente, em "Casey Jones", Hill faz uma paródia sobre os acontecimentos reais que levaram à morte de Casey Jones, um engenheiro que ficou famoso após morrer num acidente de trem em que pilotava tentando chegar o mais rápido possível a seu destino final, cumprindo as ordens do "patrão". Jones trabalhara uma jornada maior do que deveria para cumprir o cronograma de viagem do trem. Segundo Hill, Jones não passava de um fura-greve, de alguém que abriu mão da luta coletiva e que acabou morrendo sozinho. Era o exemplo a não ser seguido pelos trabalhadores.
Apesar dos protestos públicos, em 1915, Hill foi executado com tiros no peito pelo Estado de Utah, num processo até hoje confuso, depois de ter sido acusado e condenado de ter assassinado o proprietário de uma loja de Salt Lake City. Mais de 5 mil pessoas compareceram ao funeral de Hill e cantaram algumas de suas músicas.
Imagine um trabalhador como Joe Hill, no início do século XX, cantando músicas de protesto em portas de fábricas, em entradas de minas de carvão, em frente ao comércio... Fez diferença.

17/03/2007

O músico, a música e a política

Considerando os problemas sociais como problemas políticos, quer dizer, como problemas cujas soluções são (e serão) políticas, queremos ressaltar o papel do músico (de sua postura e de sua música) como formador de opinião e agente político de mudanças sociais.
Todo artista, não só o músico, tem a visibilidade pública necessária para criar tumultos e resolver problemas. Nem um nem outro é pejorativo em si mesmo: pode haver a criação de desordem numa ordem social injusta, o que é muito bom; assim como pode haver solução de conflitos que seja uma negociata que esconda os conflitos, ao invés de resolvê-los. De qualquer maneira, o que quero dizer é que o artista tem esse potencial de intervenção social aumentado, dada a sua visibilidade social, a sua presença na mídia. E graças, é claro, à existência de seus "seguidores", seus fãs, que levam muito a sério o que eles dizem.
Numa juventude (para não falar uma sociedade) desagregada, sem rumos, perdida, sem ética e sem limites, o músico pode assumir um papel ativo e positivo de criação de parâmetros mínimos de envolvimento social e de descontentamento com as coisas da vida. A liderança que os músicos, ou alguns deles, exercem, ou podem exercer, sobre seus fãs é algo que não se pode desprezar. Essa liderança, se utilizada, já pode provocar algum incômodo na ordem social estabelecida, para o bem ou para o mal.
O papel do músico, e de sua música, pode ser também um papel político de encorajamento e mobilização de uma juventude acoada e apática. Uma juventude indiferente com os problemas sociais. Mas para isso, o músico precisa querer correr riscos, precisa tornar-se consciente de seu poder social e precisa ser responsável pelo uso político desse poder. O músico que quiser marcar sua geração para além da efemeridade de ter suas músicas nas paradas de sucesso por um tempo, precisa conscientizar-se dos problemas sociais em que vivemos e assumir um posicionamento político em sua ação artística. E isso é pra já.

16/03/2007

Música e protesto


A propósito do protesto público contra a violência convocado pelo vocalista da banda Detonautas, vou começar a publicar uma série de textos que tenho escrito sobre o tema da relação da música com protestos políticos e sociais.
Nesta primeira postagem, quero, antes de tudo, parabenizar a iniciativa do vocalista dos Detonautas, Tico Santa Cruz, pela iniciativa de convocar os jovens para um ato público de protesto contra a violência que nos circunda tão de perto. Ele mesmo sabe bem o que é isso. Quero também falar um pouco do papel da música e das performances musicais para tomada de posição política e manifestação de idéias políticas.
Alguns autores vão chegar a dizer que como somos seres políticos, não há nenhum ato humano que não seja também um ato político, mesmo que não tenhamos consciência disso. Penso que esse tipo de pensamento amplia demais o leque de atitudes políticas e até barateia as ações políticas. No caso da música, especificamente, não são todos os músicos que estão interessados em envolver-se nas questões sociais, que é um envolvimento político. Pelo contrário, uma minoria está disposta a tomar um posicionamento político nos palcos ou através de suas músicas. Porque correm o risco de serem tidos como "chatos", ou "oportunistas" (tentando usar os problemas sociais para aparecer na mídia ou para catapultar sua carreira) ou até correm o risco de encurtarem sua carreira como músicos, como já aconteceu antes. Assunir uma posição política pública, contra ou a favor de alguma coisa, é sempre um risco para a carreira pessoal do artista. E isso não é de hoje. Mas também não é de hoje que uma minoria de músicos assume esse risco e abre mão de pensar só em sua própria carreira para usar os microfones a fim de divulgar idéias e ideais políticos, nem sempre nobres, nem sempre de oposição.
A música, como qualquer espaço de atuação profissional é também um espaço possível de atuação política. Quando rejeitamos participar de esquemas de corrupção, ou quando nos indignamos com a perseguição sofrida (por nós ou por outros) no ambiente de trabalho, ou quando denunciamos a injustiça como contrária à ordem social democrática, e nos recusamos a participar dela, estamos tomando posicionamentos políticos. E isso pode acontecer em qualquer nicho de atuação profissional, inclusive na música. O músico protestar contra problemas sociais os mais diversos ou contra ações ou reações de pessoas "importantes", inclusive políticos, é sempre uma manifestação de não-alienação e de envolvimento social. É uma prova de que o músico está antenado nas mudanças sociais e tem pensamento próprio.
Precisamos de mais músicos engajados no conhecimento da realidade social e na tentativa de mudar esta realidade. A música transpõe barreiras econômicas, sociais e culturais, falando a sociedades divididas economicamente, racialmente, religiosamente, politicamente... Os músicos falam uma linguagem universal (a música) que pode ser um excelente instrumento de divulgação de ideais de transformação social e de mudança de atitudes individuais. Como precisamos, você e eu, de ideais de esperança de que as coisas podem melhorar! E como precisamos, você e eu, desses ícones que levantem a bandeira da indignação com as coisas que aí estão ou de uma transformação possível da vida individual e social! Cazuza cantava, "Ideologia, eu quero uma pra viver". Músicos, peguem os microfones e os instrumentos musicais e protestem!

15/03/2007

Desterritorialização


Moro numa casa com quintal. No quintal há grama esmeralda, arbustos e plantinhas floríferas: coqueirinhos, azaléias, orquídeas, hortência e outras plantinhas. Moramos aqui há pouco tempo. É a primeira vez que moro em casa. O clima da cidade é ameno. Antes morávamos num apartamento, num lugar mais quente. Mas sempre tivemos plantinhas domésticas na sala de estar.
Quando mudamos para cá trouxemos nossas plantinhas de vaso. E como havia espaço no jardim, resolvemos plantar algumas no chão. Das plantas que já existiam no jardim, deixamos algumas onde estavam, trocamos outras de lugar e algumas jogamos fora. Compramos também algumas novas plantas para o jardim. Quero falar da experiência da mudança.
Foi uma surpresa perceber que algumas plantas que estavam no vasinho morreram quando foram plantadas no chão. Outras murcharam, secaram, mas, ao fim, resistiram e já florescem. A hortência estava há anos no mesmo lugar, no meio do terreno, reinando absoluta, com raízes profundas. Achamos melhor traze-la mais para frente do quintal para valorizá-la e ao jardim. Ela também murchou, perdeu as folhas, pensamos até que havia morrido, mas está lá, firme. Só falta florir. Mas ainda não está no tempo.
Não é fácil sair de um lugar para o outro. Não é simples: sair de um território para outro é mais do que um deslocamento. É um processo de desterritorialização, uma tentativa de se enquadrar nos novos modelos culturais do lugar de destino. O brasileiro não é igual em todo lugar, nem poderia ser igual também a sua cultura. Somos uma sociedade multicultural.
Desterritorializar é perder a segurança gerada pelas raízes fincadas no solo há tanto tempo para tentar enraizar-se em outros solos. Gera medo, insegurança, angústia. Somos excluídos, perseguidos, humilhados. Como as plantinhas trocadas de lugar, murchamos, definhamos e morremos. Ou resistimos.
Milton Santos, no livro “Espaço do cidadão”, diz que “a cultura, forma de comunicação do indivíduo e do grupo com o universo, é uma herança, mas também um reaprendizado das relações profundas entre o homem e seu meio, um resultado obtido através do próprio processo de viver. (...) a cultura é o que nos dá a consciência de pertencer a um grupo, do qual é o cimento. É por isso que as migrações agridem o indivíduo, roubando-lhe parte do ser, obrigando-o a uma nova e dura adaptação em seu novo lugar. Desterritorialização é freqüentemente uma palavra para significar alienação, estranhamento, que são, também, desculturização”.
É f***!

14/03/2007

A casa é a rua


A constituição diz que "a casa é asilo inviolável do indivíduo", resguardando o direito do cidadão ser respeitado no ambiente do seu lar. É claro que "casa" aí tem um sentido genérico, podendo-se entender qualquer lugar de moradia do indivíduo: casa, apartamento, sobrado, "barraco", "cabeça de porco"... Mas e quem não tem moradia, quem não tem nem um barraco para descansar, não está protegido pela Constituição? Quem dorme nas ruas, embaixo de pontes, viadutos ou em árvores além de viver desgraçadamente ainda pode ser atacado por outrem sem que haja punição para o agressor?
A noção de "casa" nas leis brasileiras é intrinsicamente ligada a propriedade. Quem tem condições de pagar para morar está legalemente protegido no recinto de seu lar. Quem não pode arcar com uma moradia, tem de "circular". Podemos entender que o direito brasileiro considera legal (não contrário à lei) os moradores de rua e, pior, o ataque a esses moradores também. Como se já não fosse uma vergonha termos moradores de rua numa sociedade tão rica como a nossa, ainda precisamos conviver "normalmente" com agressões a essas pessoas que vivem por aí. É claro que temos outras leis que podem ser usadas para defender o direito do morador de rua, como a invocação dos próprios direitos humanos. Mas o direito à moradia, ou melhor o direito de acesso à moradia, ainda é fragil em nossa legislação e na prática social. E ficamos sem saber até que ponto a prática social impede que se criem leis que regulamentem o acesso à moradia, ou, a omissão das leis existentes legitimam a prática social de indiferença, intolerância e violência para com os moradores de rua?
Enquanto não criarmos políticas públicas adequadas para efetivação do acesso à moradia, continuaremos com grande número de moradores de rua e de "violações" a esses moradores que não tem casa, que não tem "asilo". Enquanto isso, os movimentos sociais de organização e mobilização dos sem-teto devem continuar pressionando a sociedade e o estado na luta pela efetivação do direito à moradia!

13/03/2007

Sucesso


Hoje vou apenas fazer a citação de um trecho do livro "Resistência e Submissão", do teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer. Bonhoeffer era alemão e foi preso e assassinado pelos nazistas por sua resistência ao governo de Hitler. Da prisão ele escreveu as seguintes palavras em tom indignado de crítica e até sarcasmo:
"A um mundo em que o sucesso é o parâmetro e a justificação de todas as coisas, a figura do condenado e crucificado permanece estranha e, na melhor das hipóteses, digna de compaixão. O mundo quer e deve ser vencido através do sucesso. Os atos decidem, não idéias ou opiniões. Somente o sucesso justifica injustiça havida. A culpa cicatriza no sucesso. Não faz sentido acusar o bem-sucedido de suas virtudes. Com isso se encalha no passado, enquanto o bem-sucedido vai progredindo de ação em ação, conquistando o futuro e tornando o passado irreversível. O bem-sucedido cria fatos consumados que nunca mais podem ser revogados; o que ele destrói nunca mais pode ser reconstruído; o que ele constrói adquire direito de existência ao menos na geração seguinte. Não há acusação que possa restabelecer a culpa que o bem-sucedido deixou atrás de si. Com o tempo, a acusação emudece; o sucesso fica e determina o curso da história. Os juízes da história são tristes figuras ao lado de seus protagonistas. A história passa por cima deles. Não há poder no mundo que possa ousar invocar com tamanha liberdade e naturalidade a tese de que o fim justifica os meios como a história o faz. (...) o sucesso é o bem por excelência".
Estava buscando palavras para escrever sobre o sucesso em nossos dias e me lembrei deste livro de Bonhoeffer. Acho que nem preciso escrever mais nada sobre isso.

12/03/2007

Ensinar e aprender


Ensinar é um verbo, uma ação, que pressupõe uma outra ação, e não apenas uma reação como poderia supor alguém que tomasse uma das leis básicas da física newtoniana ("toda ação corresponde a uma reação"). A ação que é necessária quando se ensina é a de aprender.
Em alguns idiomas, por exemplo, ensinar e aprender vêm da mesma raiz etimológica, como que indicando que não há ensino sem aprendizagem, e vice-versa. E mais, indicando que não há quem ensine que também não possa aprender. E não há quem aprenda que também não possa ensinar. Ensinar e aprender não são ações estanques, separadas. São ações complementares. Ensinar não é ativo e aprender, passivo, como se supunha há um tempo. Age quem ensina e age quem aprende.
Se não houver disposição para ensinar e disposição para aprender, não haverá o encontro mágico da produção de conhecimento. O conhecimento é produzido na junção destas duas ações (ensinar e aprender) que às vezes tem direções opostas e às vezes seguem na mesma direção. Mas nunca deixam de ser realizadas, sob pena de não haver produção de conhecimento. Nesta perspectiva, muitas de nossas técnicas e métodos de ensino e de nossas relações em sala de aula (por exemplo, "professor fala e aluno ouve") são improdutivas ou estão ultrapassadas.

11/03/2007

Justiça brasileira


A justiça brasileira é alvo de críticas ferrenhas de distanciamento da sociedade como um todo e proteção de certos setores da sociedade brasileira, nitidamente beneficiando as elites. Algumas dessas críticas podem ser oportunistas e outras mesmo descabidas. Podemos até ser levados a falar mal da justiça brasileira por um fator cultural, mania de falar mal das coisas, do sistema de justiça, por exemplo. Vá lá que seja. Mas estas críticas de termos criado uma justiça elitista, mesmo que seja cultural, está fundamentada em alguma coisa minimamente real. Essa crítica não é doidice de uma sociedade sempre insatisfeita, nem produzida por uma classe operária que não utiliza o sistema de justiça porque não confia nele, e que não confia no sistema de justiça porque não o utiliza, porque está distante dele.

Realmente, a cultura do favor prevalece(u) por muito tempo na administração da justiça no Brasil. A frase clássica de Getúlio Vargas (aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei) mostra esta relação paternalista da justiça brasileira com os donos do poder. Para voltar no tempo e perceber como essa crítica à justiça brasileira é historicamente estruturada e, portanto, não é descabida, Caio Prado Júnior define a justiça no Brasil colonial como "cara, morosa e complicada; inacessível mesmo à grande maioria da população". Tenho certeza que já melhorou muito em relação ao que era a justiça colonial brasileira. Mas que ainda há ranços históricos de elitismo, de apadrinhamento, de paternalismo, na justiça brasileira... Ah, isso há!

10/03/2007

Cultivo intelectual


Falamos de cultura como se fosse mesmo um conceito universal e entendido por todos de igual maneira, independente da cultura em que ele esteja inserido. Mais adequado seria falar em 'culturas', no plural, porque há muitos tipos de sentido para o termo, assim como há muitas culturas distintas.

Mas o sentido, sem dúvida, mais interessante, do ponto de vista do processo de cognição (conhecimento) e do papel político da cultura individual, é a cultura como como cultivo, como trabalho de reflexão e de apropriação da "visão de mundo" do outro. O sujeito culto antigamente era aquele que viajara o mundo, que conhecera outras culturas, que aprendera e observar e valorizar o sentido da vida de outras nações. Já não é mais. Simplesmente porque o consumismo transformou as culturas alheias também em mercadoria.

O cultivo da intelectualidade é como um lavrador que cultiva sua plantação, que planta, que rega, que poda, que limpa o terreno, que põe inseticida, que reza para que não haja intempéries (chuvas ou sol em excesso), que observa o desabrochar das flores, que espera a colheita e que, a seu tempo, colhe os frutos, ou os resultados esperados de seu trabalho e paciência. Cultivar a intelectualidade é conhecer criticamente. É duvidar dos fatos e buscar interpretações da realidade que se aproxime de uma "visão de mundo" consciente das circunstâncias, consciente de que os discursos são ideológicos e que, portanto, tendem a mascarar intenções, paixões, realidades.

Cultivar a intelectualidade é cultivar a resistência, é trabalhar arduamente para manter uma "visão de mundo" esclarecedora das situações que vivemos, mesmo (e principalmente) contrariando o discurso dominante. É trabalhoso, é cansativo, mas é necessário, para que não se sucumba ante os apelos consumistas e os discursos "convincentes" produzidos pelas mais diferentes instâncias de poder.

09/03/2007

Aborto


Ontem falei do sangramento mensal das mulheres como sinal de força, de renovação das forças. Não queria estragar o dia internacional das mulheres com aspectos negativos, mas há um sangramento feminino que não é bem vindo, que representa morte. É quando a data da menstruação atrasa e alguns dias e depois ela desce, com intensidade, levando embora o sonho da geração de outra vida. Um aborto espontâneo, natural, no início da gravidez, é mais comum do que se possa imaginar. Às vezes a mulher nem chega a tomar consciência da gravidez, acha apenas que foi uma menstruação atrasada. Mas quando se tem um resultado positivo de gravidez, qualquer sangue representa perigo. Quando é uma gravidez planejada então, ufa!
Passamos por esta experiência ontem. É difícil!
Acho que aborto, qualquer aborto, desejado ou não, em qualquer tempo de gravidez, é sempre difícil para a mulher, é uma perda.

08/03/2007

Mulher sangra


Dia internacional da mulher e quero falar de uma característica da mulher que num primeiro olhar pode parecer fraqueza, mas que á a maior razão da força delas: mulher sangra.
Tirando os aspectos médicos do sangramento mensal das mulheres, quando não há fecundação dentro do mês etc., quero falar dos aspectos simbólicos. Sangue ultimamente tem sido associado a morte, assassinatos, "banhos de sangue"... Mas sangue é vida, é sinônimo de vida, de energia.
O coração é a bomba de sangue do nosso corpo, levando o sangue aos órgãos e células que precisam dele. Quem já fez doação de sangue sabe o vigor que sentimos no dia seguinte à doação, são as células do sangue se renovando, é a geração de novas células sangüineas. Na hora da doação é aquela apatia, aquela prequiça. Ganhamos até despensa do trabalho se formos doar sangue?! Mas no dia seguinte, sai de baixo, que a gente se sente bem mais forte.
A mulher sangra todo mês. É a renovação da força da mulher. Não é doença, é saúde, é força que já vem. Os dias de sangramento são dias de dor, de preguiça, de cansaço ou de irritação. Ou tudo junto. Mas são dias de preparação para os outros dias que virão. E quem não percebe a força com que a mulher vive os outros dias do mês, mas só olha para os dias de sangue, não vê além de uma imagem distorcida da mulher. Uma mulher frágil, carente, nervosa... Mas ela tem direito de ficar assim alguns dias não? Nós homens ficamos assim quase todos os dias...
Quando a mulher sangra é sinal que vem força bruta por aí. Força para enfrentar os desafios da vida, força para lidar com os filhos, força para se relacionar com os homens. O fluxo sanguíneo mensal é a ronavação do fluxo da vida. É a força da vida feminina que está se configurando. Os homens precisavam sangrar mais, metaforicamente. Colocar pra fora as "porcarias" que carregam na alma, na mente, no coração. Sangrar é deixar esvair as forças para sentí-las de volta, gradativamente. Até sangrar de novo. E viver esse ciclo de renovação energética e simbólica. Símbolo de força.
Sangrar é o início da renovação. Precisamos, homens e mulheres, respeitar mais esse ritual feminino e aprender a lidar com ele de maneira positiva, confiante. Como quem sabe que desafios virão. E que se não fosse o sangramento mensal, sucumbiríamos, não só as mulheres como também os homens. Afinal, sem as forças delas...
Sangra Mulher! Força mulher! Sangremos todos!

07/03/2007

Briga de família


Talvez nada separe mais a família do que as festas de família. James Joyce vai mostrar um pouco isso, no conto "Os mortos", publicado no livro "Dublinenses". É muito interessante e próximo da realidade das famílias brasileiras. Vale à pena!

06/03/2007

Skate or die!

Quem era adolescente na década de 80 ou curtia andar de skate naquela época, sabe o que significa "Skate or Die!".
Gritávamos o jargão "skate or die!" antes de arriscar uma manobra ou na hora de descer a rampa (dropar). Era uma maneira de tomar coragem, de vencer um obstáculo que por um momento nos parecia intransponível, de jogar pra fora o medo gritando para o obstáculo que ele seria vencido.
Ao pé da letra, "skate or die!" significa algo como "andar de skate ou morrer!". Ou "prefiro morrer a deixar de andar de skate". Ou ainda, "andar de skate é enfrentar a morte". Parado que não se podia ficar. Ou enfrentávamos os desafios que se colocavam à frente ou não deveríamos mais andar de skate, porque andar de skate era, para nós, enfrentar desafios.
O final dos anos 70 e os anos 80 foram cheios dessas frases de efeito com o tema da morte: "Punks not dead" (algo como "uma vez punk, punk até morrer"); "Live and let die" ("Viva e deixe morrer", que foi um dos sucessos de James Bond) etc. O que se estava questionando era o limite do homem. Foram nos anos 80 que apareceram os precursores da geração experimental dos anos 90, que não tiveram medo de enfrentar e desafiar circunstâncias e limites humanos (grunge, bung jump etc.).
Falei tanto para chegar ao final e dizer que precisamos de frases prontas às vezes. Principalmente dessas frases gritadas que nos faz ter coragem para ir adiante. Porque às vezes a circunstância é mesmo desencorajadora, é difícil. Não é questão de auto-ajuda, mas de tentar encontrar forças para fazer o que é preciso ser feito, para tomar uma decisão. De ouvir umas palavras que nos encoraje, mesmo que elas venham de nós mesmos. Quem sabe gritar, "não vou deixar essa idéia morrer!"; ou "se as coisas continuarem como estão, é o fim!"; ou ainda, "vou tomar essa atitude mesmo desagradando à maioria, porque sei que é a certa"; ou simplesmente, "Senhor, me dá forças!", "socorro!", "alguém me ajude!", "é agora ou nunca!"...
Didi, esse é pra você, no seu dia. Parabéns!

02/03/2007

Anti-democracias brasileiras


Nas minhas andanças pelo Brasil tenho descoberto que as raízes anti-democráticas brasileiras são mais profundas do que talvez possamos imaginar, causando consequências graves para a estrutura social brasileira e para a auto-estima dos cidadãos brasileiros. Tenho visto todo tipo de abuso de poder e exploração do homem pelo homem: tráfico de influências, desprezo, assédios moral e sexual, humilhação, perseguição, exploração da força de trabalho.
Moro numa cidade onde alguns patrões se acham donos dos seus subordinados, como numa relação escravocrata que perdura. Os trabalhadores destes "senhores" são "proibidos" de ficar doentes, tem de voltar a trabalhar em uma semana após ter tido bebê, são vigiados por câmeras para não comer em serviço nem ficar à toa, realizam os trabalhos domésticos do patrão junto com o serviço obrigatório da empresa e não podem reclamar na justiça trabalhista por nenhuma irregularidade sofrida, sob pena de terem suas vidas desgraçadas.
Estes "senhores" (e "senhoras") se consideram e estão, de fato, acima da lei. Não há direitos para seus escravos, quer dizer, trabalhadores. Só o direito de ficar calado, para não ter suas palavras usadas contra si mesmos. A anti-democracia autoritária brasileira se alimenta da ignorância e da mão-de-obra barata para reproduzir a dificuldades que temos, como sociedade, de reconhecer os direitos do outro e de legitimar uma Justiça para todos.

01/03/2007

Ameaça de morte


Existe algo pior que a morte. A ameaça de morte. Se a morte significar dormência, a ameaça de morte significa insônia. É melhor estar morto do que viver com o terror de ser morto a qualquer momento. A ameaça de morte é mais destrutiva que a própria morte. Ela cria o medo da morte, que é pior que a própria morte. A morte até poderia ser vista como uma coisa boa, como sinônimo de descanso, mas passa a ser encarada como algo terrível. O descanso que a morte representaria se consumada, passa a tirar a paz de quem está sendo ameaçado. Vislumbrar a morte como o fim de uma jornada seria cruzar a linha final exausto e feliz, independente da posição em que se chegasse, certo de que cumpriu o seu dever. Mas aquele que é ameaçado de morte vê a sua jornada encurtada, mesmo antes da morte chegar. E pior, não por Deus, que é o dono da vida e dos destinos humanos, mas por alguém, igual a ele, que resolve ameaçá-lo de não completar sua jornada, de retirá-lo da vida.
Ameaçar de morte é matar antecipadamente. É matar nos nervos, nas emoções, na razão. É tirar a vontade de viver do sujeito ameaçado, que questiona seu tempo aqui e imagina seu fim iminente. Ameaçar de morte é descredibilizar a vida, a história pessoal. É derramar sangue sobre um pedaço de papel com muitas letras e palavras sem nexo nenhum. Ameaçar de morte é não reconhecer que essas letras e palavras tem um sentido próprio, que é a vida do sujeito e suas experiências. Pior, é confundir essas letras e palavras, retirando seu sentido. Fazendo o ameaçado acreditar que sua vida não teve sentido, que não valeu a pena vivê-la.
Estou falando da ameça de morte que se ameaça chamando pelo nome: "ei, Fulano, eu vou matar você. Eu vou acabar com sua vida!"Coisa mortal é a ameça de morte. Haja força para suportar. Haja terapia.

28/02/2007

Emprego e aconchego


Estive pensando sobre a importância do trabalho na vida de um indivíduo. Alguns autores, mais recentemente, vêm discutindo a centralidade do trabalho numa sociedade sem trabalho. Estes autores apontam para a necessidade de se reduzir a importância das relações de trabalho nos dias de hoje, alegando que é exagerado atribuir tanta importância a um aspecto da vida que está cada vez mais escasso. Pode ser que eles tenham razão, que numa sociedade em que o desemprego é gritante e gigante, o trabalho deva ficar para segundo plano. Talvez devessemos mesmo nos preocupar mais com o desemprego, e com as consequências dele para a sociedade e o indivíduo. Mas este tipo de preocupação (com o desemprego) já aponta, de novo, para o fato de que o trabalho é tema central ainda em nossas sociedades e em nossas vidas. Se o trabalho não fosse tão central ainda, não nos preocuparíamos com a falta dele.
Ao contrário do que alguns velhos marxistas pensavam, o trabalho não traz benefícios só econômicos para o indivíduo. Traz também, e este é um aspecto fundamental do trabalho, a identificação do indivíduo com uma instituição ou um time. Trabalhar é também identificar-se e diferenciar-se. Identificar-se com seus pares, seus iguais, outros profissionais da empresa em que se trabalha ou com outros profissionais da área. Mas é também um diferenciar-se, que é o outro lado da identificação, dos outros profissionais da mesma empresa ou de outras ou até daqueles que não estão empregados.
Comparo o emprego ao aconchego dos braços maternos. Acolhido nos braços da mãe, o filho se sente protegido, amparado e motivado. O emprego deixa o trabalhador acolhido, satisfeito por ter uma identidade (profissional e social). O desemprego, por outro lado, deixa o trabalhador desprotegido, solitário, angustiado e temeroso. Uma das maiores tragédias que a falta de emprego pode causar não é de ordem econômica, é de ordem identitária. O desempregado se sente de fora de um sistema que valoriza os que estão de dentro, os que estão empregados, os que são "produtivos", para usar uma palavra mais apropriada. O trabalhador sem emprego luta todo dia com sua auto-estima, que teima em querer compará-lo com os empregados e inferiorizá-lo. Ou tenta fazê-lo saudosista do tempo em que estava empregado, mesmo que mal empregado. O problema é social, a falta de emprego, mas ele é sentido individualmente, na cabeça, no bolso e na barriga do desempregado. Eu sei disso.

27/02/2007

26/02/2007


Já ouvi histórias.
Já pesquei piabas.
Já andei descalço.
Já quebrei um vaso.
Já fiz pirraça.
Já contei piada.
Já fui cantor.
Já arranquei uma flor.

Já presenciei brigas.
Já fui preso.
Já vi intrigas.
Já levei tiro.
Já morri.
Já levitei.
Já senti.
Já amei.

Já vivi,
Já sonhei,
Já experimentei...
Na realidade ou na ficção,
Minha mente já foi
Onde esteve meu coração.
E eu continuo aqui:
Vivendo.